Artigo

Lágrimas da ingratidão

06 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Neiff Satte Alam, professor

Madrugada ainda, o homem soltou a xícara de café ainda quente sobre a mesa, enrolou uma porção de fumo em uma palha de milho ali mesmo feita, acendeu o palheiro, deu uma tragada profunda, que provocou uma tosse um tanto estranha, e saiu para o pátio e foi até um estábulo feito de material rudimentar e de péssimo acabamento.

Ali se encontrava o Cascão, um cavalo pequeno, com as ancas marcadas por ossos característicos de uma má alimentação e um pelo em pior estado ainda. O animal era muito velho, além de mal tratado. Com um olhar de olhos opacos e de infinita humildade, cabeça baixa, deixou-se preparar para ser atrelado a carroça e sair para mais um dia de trabalho.

As ferraduras há muito já era para terem sido trocadas, pois, frouxas, faziam-no mancar. A dor deveria ser insuportável, mas parar era sinal de que seria castigado imediatamente por açoites que lhe fariam sangrar o lombo.

Já na rua, a maioria das pessoas, envolvidas com seus próprios problemas, não davam atenção aquela cena de tortura a que se submetia o obediente Cascão, ganha pão de seu dono. Naquele dia uma criança que se dirigia à escola se condoeu com o sofrimento evidente do animal, aproximou-se dele aproveitando uma parada e afagou seu focinho úmido e frio, ato que foi imediatamente reprimido pelo carroceiro.

Foi aquele o último ato de carinho e de humanidade. Nem bem a criança tinha se afastado o cavalo afrouxou as patas dianteiras, tentou ainda manter-se em pé, mas, sem forças, caiu sobre a pedra ainda úmida pelo sereno da madrugada e muito fria. Seu corpo inteiro finalmente foi ao solo, mesmo que açoitado violentamente por seu algoz de décadas não pode mais se erguer. Com um ronco estranho e um suspiro de gelar o sangue do mais indiferente dos observadores, que já se acumulavam em torno daquela cena dantesca, finalmente descansou. A criança que o havia acariciado não viu a cena, pois estranhamente havia simplesmente sumido em meio a névoa que ainda cobria a manhã. Era como se nunca tivesse por ali passado...

O carroceiro que até então não dava o real valor àquela criatura, caiu em si, abraçou o Cascão e grossas lágrimas derramou sobre o corpo inerte, agora liberto de sofrimento, daquele que tinha sido companheiro e salvação em muitos momentos de problemas enfrentados, que não se queixava, nada exigia, apenas servia...Mas que seria agora uma ausência permanente, que transmitia ao seu dono um outro tipo de dor, a dor causada pelo sentimento de ingratidão...

Esta é nossa história. A história de uma nação onde os governantes há muito tempo usam e abusam do povo; o trabalhador rega os cofres da União com o seu suor; o cidadão comum deposita confiança no legislador ao dar seu voto e recebe em troca o descaso para legislar em prol deste cidadão.

Este é o sentimento de ingratidão, que não terá lágrimas suficientes para lavar as impurezas das atitudes do mais absoluto desinteresse.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados