Editorial

Irresponsabilidade eleitoral

25 de Junho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

É pouco provável que ainda existam cidadãos ingênuos a ponto de crer na falácia de políticos que dizem não se valer de seus cargos de momento para trabalhar pela manutenção deste poder. Para a imensa maioria dos detentores de posições públicas, o objetivo prioritário desde o dia da posse é a reeleição. Ou a projeção a um novo cargo dentro de dois ou quatro anos. Por mais que não admitam e se esforcem em demonstrar indignação quando confrontados com essa realidade. Há, inclusive, quem construa imagem de contrariedade com reeleição e desapego ao poder, mas que jamais deixe de disputar eleição ou recondução ao cargo.

Importante que fique claro: tal conduta não é ilegítima ou ilegal. Pode ser questionável pela falta de sinceridade e clareza de objetivos perante os cidadãos, mas a ambição não é vetada pela legislação. A regra do jogo democrático está sendo cumprida, sem rupturas.

Contudo, cada vez mais este tipo de desejo pessoal pelo poder tem se demonstrado perigoso. Em grande parte do mundo, é verdade, mas sobretudo no Brasil. Por aqui já houve presidente comprando votos no Congresso para mudar a lei e ter possibilidade de se reeleger. Também foram comprovados repasses a parlamentares para que apoiassem o governo da vez e, consequentemente, aprovassem projetos capazes de garantir políticas populares e que rendessem votos futuros. Como, da mesma forma, ocorre nas esferas federal, estadual e municipal de haver loteamento de cargos por indicações de vereadores, deputados e senadores em troca de sustentação de governos e, ali adiante, haver mais cabos eleitorais nas campanhas.

Tão grave quanto o uso da máquina de influência é a distribuição de recursos públicos com interesses unicamente eleitorais. O que se desenha neste momento no governo federal. Preocupado em reverter o cenário desfavorável de momento nas pesquisas, agravado com a inflação, o Planalto articula distribuição de vale-combustível de R$ 1 mil a caminhoneiros. Aposta, ainda, em um aumento de 33% do Auxílio Brasil (de R$ 400 para R$ 600) até o final do ano. Medidas que, mais do que populistas, contrariam o compromisso de responsabilidade com as contas defendido, inclusive, pelo Ministério da Fazenda. Por mais que a população precise de ajuda do Estado, ela precisa ser verdadeira e estruturada, e não viciada. Algo que pode se transformar em uma granada sem pino, pronta a explodir no colo do próximo governo, seja ele qual for, e da população, principalmente.

A disputa eleitoral visando um projeto político e administrativo é esperada. Mas não a qualquer custo. A irresponsabilidade do desejo pessoal sempre resulta em prejuízo coletivo.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados