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Invisíveis

29 de Junho de 2020 - 08h24 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Ezequiel Megiato - coordenador do Escritório de Desenvolvimento Regional - EDR

Costumo estar entre os otimistas, ser daqueles que olham pela lógica do copo meio cheio, do que meio vazio, assim, vejo que as crises são oportunidades para aprender, corrigir rotas e evoluir.

Nesse período, muito se falou sobre os impactos na economia. Como assistimos, os impactos negativos estão aí, aquém do que era estimado, mas ainda assim péssimos, tal como as expectativas para o restante do ano, que se somam à incertezas que, por óbvio, existem.

Na seara das inúmeras questões que foram trazidas à tona pela crise da pandemia, houve espaço para olhar um contingente extremamente significativo da população, os chamados invisíveis, que justiça seja feita, foram trazidos ao debate econômico ainda no ano passado pelo ministro da economia, Paulo Guedes, quando o mesmo justificava as necessidades de uma reforma da previdência. Já naquela época, o ministro comentava sobre o fato de existir uma parcela significativa da população que não era alcançada pela formalização econômica, que alcança apenas cerca de 50% do total da mão de obra do país, mas que envelheceria e precisaria de alguma renda no futuro, ainda que não houvessem contribuído diretamente para a construção de um fundo de previdência social. Assim, uma reforma que simplificasse o regime previdenciário e trabalhista, incluiria mais pessoas à formalidade, tirando-as da invisibilidade. De fato, isso aconteceu, o país gerou quase 5 milhões de novos empregos após a reforma trabalhista e quase 2 milhões após a reforma da previdência. Certamente, como já comentado em outras oportunidades, a atual crise afetou a retomada econômica. De igual modo, tivéssemos regras mais rígidas, o desemprego hoje seria maior do que o que ocorreu.

Contudo, além dos informais, alcançados pelo benefício do auxílio emergencial, há um outro contingente de brasileiros, estimados entre 2% a 3% da população que ainda continuam invisíveis. Essas pessoas estão em um nível de extrema pobreza, para além das estatísticas. Não possuem conta bancária, registros precários, enfim, estão à margem. São pessoas que estão, em muitos casos, em zonas remotas, mas podem estar nas periferias das cidades. Pouco se nota, são invisíveis de fato. Se são vistos, o são quando em extrema necessidade demandam algum serviço de saúde ou são alcançados pela Igreja e outras instituições religiosas ou instituições assistenciais que possuem uma visão muito mais apurada do que o Estado.

Está aí, creio, uma boa atividade com potencial de fomentar o desenvolvimento local e regional: mapear os invisíveis, procurá-los onde estão, resgatá-los e inseri-los na sociedade. Sempre é bom lembrar, desenvolvimento é amplo, é social, ambiental e econômico. Se não trabalharmos esse tripé, estaremos falhando e perdendo um tempo que não temos mais.


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