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Invisíveis

30 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Quando a ONG Médicos sem Fronteiras completou 20 anos de existência e trabalho nas regiões mais pobres e conflituosas de nosso mundo, como parte das comemorações os diretores de cinema Wim Wenders, Isabel Coixet, Fernando de Aranoa, Mariano Barroso e Javier Corcuera produziram "Invisibles". É um documentário que mostra a cara da indiferença e da falta de empatia de todos nós ou de quase todos nós, diante do tormento que alcança milhares de pessoas, especialmente, mulheres e crianças. A iniciativa e a produção foram do ator espanhol, Javier Barden. Wenders dirige a porrada "Crimes invisíveis", colocando em nossa mesa de jantar as histórias de mulheres estupradas durante a guerra civil do Congo. A doença de Chagas, que atinge milhões de pessoas na América Latina, é o tema de "Carta a Nora", que Coixet nos oferece de antepasto. O sofrimento sem precedentes dos camponeses colombianos é abordado por Corcuera em "A voz das pedras". Não dá pra almoçar. "Boa noite Ouma", de Fernando de Aranoa, é o pesadelo compartilhado das crianças soldados na guerra em Uganda. Mariano Barroso, em "O Sonho de Bianca", revela o uso de ingredientes farmacêuticos na França e no continente africano. Gosto amargo para café da manhã.

Muitas vezes, somente a ruptura de nossa rotina, seja pelo acaso, pela força de alguma expressão, que pode vir das artes, por algum encontro surpreendente, por algum abalo é o que nos leva a parar e a pensar. Um documentário como "Invisíveis" tem essa força: de nos fazer sair do torpor cotidiano em que nossa sensibilidade está reduzida às sensações de frio e calor, aos carinhos protocolares, a fazer e a pagar contas, a pedir a proteção de deus e ao enfrentamento irracional.

O cenário do coronavírus no qual estamos vivendo nos últimos meses, inesperado e imprevisível, parece insuficiente para nos tirar da modorra e da insensibilidade. Enganamos a nós mesmos porque temos a impressão de que somos autônomos e inteligentes toda a vez que xingamos o vizinho quando ele é esquerda ou direita ou nenhuma coisa nem outra. Cada qual parece ter o foco em seu umbigo, em seu negócio. É a própria rotina deificada. No Brasil já são mais de 25 mil mortes pelo vírus. No momento em que escrevo, mais 1.086 mortos nas últimas 24 horas. Quantos aviões precisam cair em um mesmo dia para tocar o coração da gente? Uma filha, um pai, uma avó, um amigo vitimado pelo vírus é um abalo tremendo que se estende a uma rede enorme de pessoas.

O fenômeno da morte não é propriedade do falecido, pois, sobretudo, se reflete vivo na incompreensão da perda, na ausência do abraço, do beijo e da conversa, na cadeira desocupada à mesa, no quarto vazio, na taça de vinho que jamais voltará a ser apreciada. Um nunca mais definitivo. Cada um dos 25 mil mortos tem um nome, uma tarefa, um lazer, um calor de abraço e de olhar, um perfume. Mas estando no amontoado dos 25 mil, tudo o que é humano e essencial fica invisível, parece não haver ninguém. Os rostos desconhecidos, se um ou 25 mil, não importa, são insignificantes. Só um número. Ninguém chora por números, assim como ninguém chorava pelo número de mulheres estupradas ou de meninos soldados até que o documentário mostrou os olhares, os rostos, as falas, os corpos destroçados pela tristeza. Tentativas de tirar-nos da indiferença vêm sendo feitas pela Universidade Católica de Pelotas, através do projeto Cada pessoa importa e, também, pela Folha de São Paulo. São tempos difíceis porque estamos sendo induzidos a obliterar a empatia, a caminhar à desumanização, a apostar na injustiça e na violência, a adotar a mentira como verdade. Isso se chama fascismo. Sem arte, sem nomes. Apenas números. Invisíveis.

Cada pessoa importa: https://ucpel.edu.br/noticias/site-para-homenagear-vitimas-do-novo-coronavirus-recebe-primeiro-depoimento


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