Editorial

Intervenção e populismo

24 de Fevereiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Uma em cada dez ações negociadas na B3, a bolsa de valores de São Paulo, é da Petrobras. Esse é o peso que a empresa, a mais valiosa do país, tem no mercado financeiro brasileiro. Consequentemente, qualquer movimento - positivo ou negativo - relacionado a ela possui grande impacto em toda a economia nacional. Não só ao beneficiar ou prejudicar acionistas com a volatilidade dos papeis, gerando ganhos e perdas. Mas ao gerar repercussão entre quem aplica recursos não só na companhia, mas em outros ativos do Brasil.

Diferentemente da confusão gerada pela imagem de que a Petrobras "pertence" ao governo, na prática não é bem disso. Trata-se de uma sociedade anônima de capital aberto e que tem, no seu corpo societário, todos aqueles que possuem ações. Sejam elas poucas ou muitas. Logo, embora seja, sim, uma estatal pelo fato da União continuar como acionista majoritária, é uma empresa de economia mista.

O esclarecimento se faz necessário diante da desastrada intervenção direta feita pelo presidente Jair Bolsonaro na petroleira ao pedir troca no comando e indicar o general da reserva Joaquim Silva e Luna para substituir o economista Roberto Castello Branco. Pressionado por caminhoneiros - que até então o apoiavam - insatisfeitos com o alto preço dos combustíveis, o presidente não manteve a palavra de não interferir na Petrobras. Com isso, provocou uma desvalorização da companhia superior a R$ 100 bilhões em dois dias. As ações, que valiam cerca de R$ 30,00 há uma semana, ontem fecharam em torno de R$ 24,00.

O recado dado por Bolsonaro foi claro: embora diga que não, vai intervir na política de preços dos combustíveis mantida pela empresa e, até outro dia, defendida por ele e sua equipe econômica. E a resposta, evidente, é a fuga de investidores. O que prejudica a companhia, pequenos acionistas e o país, pois outras empresas passam a ser vistas com desconfiança diante do cenário de incertezas da economia e idas e vindas do governo.

Quem trabalha percorrendo as estradas do país em caminhões tem razão em reclamar do preço do combustível. O motorista que abastece seu carro e sua moto nos postos também. Porém, o presidente age mais uma vez de forma atabalhoada ao intervir na Petrobras dessa forma, esquecendo sinalizações e compromissos feitos até então. Segundo especialistas, há outras formas de reduzir o peso do diesel, por exemplo, sem prejudicar a estatal. Subsidiar seria uma delas.

Ao invés disso, Bolsonaro opta pelo caminho da indicação de mais um militar na diretoria da companhia, alinhando a principal empresa do país aos seus rompantes populistas. Tudo aquilo que foi atribuído a governos anteriores - não só no Brasil - e fortemente criticado.


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