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Incentivo à leitura: de avó para neto

19 de Setembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Poucos dias depois de eu completar seis anos a minha avó Maria Augusta S. Carvalho realizou um sonho: publicou o livro "Memórias da vó Deza", pela editora Unijuí, durante cerimônia realizada em Ijuí no longínquo ano de 1987. Assim como os outros netos, eu ganhei um exemplar, que guardo comigo até hoje. Dois anos depois do lançamento do livro, em novembro de 1989, ela faleceu, também em Ijuí. Foi o único de meus avós que conheci, pois quando nasci meus dois avós paternos já haviam morrido e meu avô materno também. No pouquíssimo tempo em que convivi com ela ficou essa marca: o lançamento de seu livro e o orgulho de ser escritora (além dos doces e balinhas de caramelo, é claro).

Fui ler a obra anos mais tarde e um dos pontos que me chamou a atenção foi justamente a exaltação às letras e o fato dessa paixão ter sido herdada do pai dela, meu bisavô. Minha avó conta nas memórias que ele ficou cego e pedia para que ela lesse obras literárias na beira da cama. Ou seja, o amor pela literatura de meu bisavô era um amor que ultrapassava qualquer barreira física e isso certamente influenciou minha avó.

Muitas pessoas poderiam imaginar que se trata apenas de uma obra familiar, mas quando estava na faculdade descobri que era bem mais do que isso: nascida em 1904, as memórias de minha avó servem até hoje de consulta para pesquisadores que tentam entender como era o interior gaúcho nas primeiras décadas do século XX. Uma das histórias narradas por ela, inclusive, pode ser relacionada com o momento em que vivemos hoje: "Em 1906 aconteceu uma grande tragédia com essa pobre família, que não só a abalou, como também aos vizinhos: uma terrível enfermidade chamada tifo derrubou quase toda a família" (p.13).

Obviamente que essa paixão pela literatura de minha avó, herdada de meu bisavô, foi transferida para os filhos (minha mãe e meus tios) e, consequentemente, para os netos (eu e meus primos, com uma ou outra exceção). Quando morei na casa da minha tia Eva (in memoriam) durante a graduação em Jornalismo devorei alguns de seus livros clássicos que formavam uma estante de dar inveja a qualquer apaixonado por literatura: Balzac, Tolstói, Thomas Mann, Hemingway, Dostoiévski, Erico Verissimo, Montaigne, etc. E, para a minha sorte, além da família de minha mãe ser apaixonada por livros, meu pai também sempre foi um leitor compulsivo, tanto de obras literárias quanto de livros acadêmicos da área dele, o Direito.

Como consequência desse incentivo, mesmo que indireto, dado por minha avó aos netos, meus irmãos Fábio e Carolina também são apaixonados por livros e, como já escrevi aqui e em outros lugares, o escritor da família _ no sentido de literatura mesmo _ é o meu irmão mais velho. Eu acabei estacionando no jornalismo e na pesquisa e apenas vez ou outra me aventuro a escrever algumas mal traçadas linhas de ficção ou poesia.

Enfim, escrevi toda essa história pessoal para dizer ao leitor que, por favor, incentivem os seus filhos e netos a lerem e a gostarem de literatura. Nunca teremos uma sociedade pensante sem isso. Afinal, assim como uma criança que não lê muito dificilmente se tornará um leitor no futuro, uma sociedade sem leitores não tem como se tornar uma sociedade minimamente desenvolvida. Quem não lê é facilmente manipulável e não adquire os aparatos cognitivos necessários para interpretar criticamente os acontecimentos. Para finalizar, com mais de 30 anos de atraso, aproveito para agradecer publicamente a maior herança que eu poderia receber em vida: obrigado vó Deza!


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