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Grande Hotel: onde estás?

14 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet, advogado

Nesta semana iria falar dos 15 anos do iPhone e da sua importância para o segmento digital, porém ver o Grande Hotel em processo de deterioração me causa tristeza. Não é de hoje que escrevo sobre o assunto. Em 21 de janeiro de 2019 publiquei um artigo sobre o Grande Hotel de Pelotas. No dia seguinte houve a réplica do então reitor. De lá para cá, há uma coisa a ser pontuada: passados três anos, nada, repito, nada caminhou ao círculo virtuoso. Desejava que na época pelo menos alguma coisa surtisse efeito, porém nada. Mais do mesmo. Muita política e pouca prática.

Não confiaria ao Estado a gestão duma vinícola, tampouco de um hotel. Isso vale também para uma fábrica de smartphones. Já pensaram um celular público e de qualidade? Será que o iPhone seria a vanguarda dos celulares inteligentes se dependesse de todo um trâmite burocrático que entre um carimbo e outro passam-se três anos?

Pois é. Este é o mote da ineficiência e quando se coloca o gratuito na equação tudo vai pelos ares. Convencer o gestor público de que ele está errado é tarefa hercúlea. A vaidade está acima da razão. É deveras complexo e, para tal, elenco dois pontos: 1) tinha a certeza de que o processo licitatório, mesmo que bem-sucedido, não seria o suficiente para o restauro de um bem daquele quilate; 2) atividades privadas não devem ser prestadas pelo Poder Público. É irascível que uma universidade administre uma frota de ônibus, uma eclusa e, pasme, três anos depois, um hotel em fase de decomposição.

O reitor foi raso sobre todo o imbróglio de um dos edifícios que mais se destaca no Centro Histórico, militando pelo seu projeto de manter o Grande Hotel como um dos muitos imóveis da instituição em favor do público, gratuito e de qualidade (mas que consome 10% do nosso PIB e 100% dos royalties do pré-sal, como disse em meu artigo anterior). Reafirmo o meu posicionamento: a administração de um hotel foge ao prumo duma instituição de ensino público.

Claro que virá o argumento de que a "pandemia atrasou isto", "o presidente fez aquilo" e "blábláblá". A conversa ensaboada que adorna os argumentos comuns a todos os assuntos que estão em voga na cidade, como a do Hospital Escola, que de grande caiu para médio, de quem defende que o Estado deve a todos cuidar, quando o contrário é a única forma de se livrar de todos os males, seja ele em Brasília, seja em Pelotas.

Na mesma oportunidade o ex-reitor afirmou que um valor de aproximadamente R$ 9 milhões seria captado junto ao Iphan é suficiente para a satisfação do projeto. Pois bem. Essa quantia não é suficiente nem para a readequação da fachada, o que dirá para o cumprimento de todas as promessas feitas lá em 2019, como abrigar o curso de Hotelaria da UFPel. Triste, mas mais R$ 9 milhões que poderiam ter sido destinados a outras finalidades foram pelos ares. Com as obras paradas, outros recursos far-se-ão necessários.

Quem sabe numa realidade alternativa o Grande Hotel possa ser um dos destinos escolhidos por quem vem de outras localidades para cá, porém ele também poderia servir a outras funcionalidades, como um prédio comercial e, até mesmo, ser de fato um hotel.

Enquanto isto, o Grande Hotel segue lá, esquecido, apequenado, às traças. Esqueceu-se o gestor que, independente de onde vem a verba, ela deve ser administrada de forma a dar cabo ao projeto que lhe deu origem ou então entregar o prédio à iniciativa privada e, numa vibe de Não olhe para cima, não veja o Grande Hotel com os olhos de quem quer que a cidade seja reconstruída, senão um meio de engrandecimento dos órgãos de Estado, que custam caro ao contribuinte. Afinal, quem está custeando uma obra que não será acabada tão cedo é você, o contribuinte.


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