Análise

Globalização, amebas e política

14 de Setembro de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Neiff Satte Alam - colaborador

Poderosas amebas do mundo microscópico emitem prolongamentos gelatinosos de seu próprio corpo (pseudópodos), rastejando e englobando partículas alimentares e outros micro-organismos. Nesta atividade, as amebas crescem incorporando ao seu organismo as substâncias resultantes da digestão que se dá em seu citoplasma.

Vejam, portanto, que esta atitude de englobar outros seres mais frágeis e torná-los parte de sua estrutura, não é uma novidade, pois do sistema de globalização neoliberal (neocolonialismo), circunstância em que os gigantes da macroeconomia vão absorvendo os pequenos empresários do mundo periférico e incorporando o capital destes aos seus insaciáveis citoplasmas, cujas enzimas providenciam novas formas de voracidade incontrolável.

Estes micro-organismos já foram as formas mais evoluídas do planeta. Em algum momento do passado da Terra, reinaram absolutos como se fosse o ponto final da evolução, mas, com o passar dos séculos, esta forma passou a ser inconveniente, pois destruía mais do que poderia ser construído.

Outros pequenos seres, mais cooperativos e com ideias mais avançadas, iniciaram uma nova forma de superar as adversidades sem trazerem prejuízos uns aos outros, mas, ao contrário, resolveram unir-se em suas diversidades e aproveitar as diferenças para promoverem um desenvolvimento harmônico. Surgiram, então, os micro-organismos coloniais, seres que se uniram anatomicamente, mas mantendo suas características próprias e contribuindo cada um com suas capacidades mais peculiares para que o todo pudesse fortificar-se e, fortificando-se, proteger cada parte deste equilibrado conjunto.

Mais uma vez a natureza nos dá uma lição de como globalizar sem causar danos às partes mais frágeis e desprotegidas, mas, ao contrário, fortalecer as partes através de conexões saudáveis.

O maior desafio dos dias de hoje, quando a globalização se torna irreversível, é manter uma harmonia entre os diferentes segmentos humanos que possuem culturas diferentes e específicas, sem que sejam englobadas e destruídas para que suas partes se incorporem às mais poderosas, mas não obrigatoriamente melhores.

A falta de respeito e reconhecimento de que culturas mais frágeis economicamente possam ser mais úteis na configuração de um mundo mais equilibrado em que todos tenham oportunidades iguais na busca de uma satisfação de vida, que torne as adversidades suportáveis pela reciprocidade de apoio nos momentos de dificuldades.

A globalização, pois, não pode ser um sistema de desagregação, mas uma forma de integração, de elevação do índice de satisfação e crescimento da humanidade para usufruir da melhor forma possível nossa casa, isto é, o planeta Terra.

O que vemos acontecer com a maioria dos países do "terceiro mundo" é o melhor exemplo de que uma globalização equivocada, parasitária e que pretende submeter, mais do que ampliar áreas de interação, fazendo com que as partes deste todo "globalizado" se tornem um conjunto homogêneo, desmerecendo a milenar cultura grega. Compromete-se, assim, o princípio da complexidade, pois retira-se o "complexus" das partes que se unem na formação do todo...

Na política a situação não é diferente. O grande contingente de pessoas envolvidas em políticas partidárias e suas saudáveis diferenças ideológicas deve contribuir para o crescimento da nação e não para o aprofundamento danoso de conflitos sociais, que mais prejudicam do que contribuem para o desenvolvimento social e econômico.

Não podemos regredir à situação primitiva das amebas que só sobrevivem englobando e digerindo as fáceis presas que não podem se defender de seus instintos de "dominação e controle", a qualquer preço.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados