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Gastón dos ovos de comichón! (I)

22 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Filha primogênita do imperador, herdeira presuntiva do trono brasileiro, a princesa Isabel, casada com Gastão de Orléans, tinha sério compromisso com a dinastia de Bragança e com o seu país natal: ter filhos. Mas isso era um problema para o casal: Isabel não engravidava. A esterilidade era um estigma. No passado, sabe-se, levava até à dissolução de consórcios reais. Gastão teria problemas? Seu apelido entre os Saxe Coburgo - dona Leopoldina, irmã de dona Isabel, e seu marido o duque de Saxe Coburgo - era um tanto zombeteiro: "Gastón dos ovos de comichón!" Nem guerreiro nos campos de batalha nem reprodutor entre quatro paredes. Ele, pelo menos, parecia importar-se, pois escreveu: "A Providência, nos seus insondáveis decretos, não parece, por ora, querer que meu casamento produza o principal e natural fruto que dele se devia esperar". Mas o assunto trazia ansiedade. Muita ansiedade. Seu "liqueur" não seria prolífico? Havia várias receitas para corrigir o problema: banhos de águas ferruginosas ou o consumo de substâncias que estocassem o esperma: ovos, leite, figos. Até passes espirituais e benzeduras. Na Inglaterra, por exemplo, discutia-se o problema capaz de arruinar a autoestima do homem: sparmathoria panic. A terapêutica? Cauterização da uretra. Só ela era capaz de tornar a ereção mais vigorosa e a ejaculação menos rápida, restaurando a tensão viril. A origem? O excesso de continência!

E do lado de Isabel? Ela não sofria de frigidez. Ao contrário, a princesa adorava a presença física do marido. Quando ele viajava, reclamava a cama vazia. Mas era terra seca. Nas cartas, nem sequer circulavam rumores de gravidez. Anunciava-se o drama familiar, pois procriar herdeiros para o trono era obrigatório. A cultura católica acreditava que a maternidade era um valor. Associava a mãe a Maria. A mãe era o "altar", o "amor sem limites", a capacidade de suportar todas as dores. Sacrifício e educação religiosa alimentavam as consciências, mas não resolviam as questões biológicas. Certa feita, Isabel escreveu a Gastão perguntando-lhe sobre o "seu mês que não veio". Aditando: "Nada sei, querido Gastão, e não ouso perguntar a outras pessoas, só a você!" 

No quarto aniversário de casamento, ainda sem filhos - a princesa casara em 1864, ela prometeu construir uma igreja no Morro da Cruz, em Caxambu, sul de Minas Gerais, em louvor a santa Isabel da Hungria. Precisava engravidar! "Quero tanto ser a mãe do teu filho", dizia a Gastão. As jornadas de fé eram também as da saúde. Passou por Aparecida e Guaratinguetá onde, em cada altar, pedia desesperadamente um fruto! Passou pela estação de Águas Virtuosas em Campanha e Lambari. Era uma espécie de "parada higiênica". As ruas das pequenas cidades do interior brasileiro se enchiam de palmas e incenso. Nos panoramas rústicos, a princesa tomava banhos medicinais para curar a "moléstia". Sem engravidar, ela fazia música. Chegou a encomendar um acordeão que lhe foi enviado a Minas Gerais. Enquanto isso, as questões públicas continuavam sem mérito. "Por aqui há muitos pobres e se lhes dou dinheiro em papel, muitas vezes não sabem o que vale", escrevia à imperatriz Teresa Cristina, sua mãe. Apaixonada pelo marido, enchia-o de carinhos. "Meu bem amado do coração, onde você estaria nesta hora? Quando te reverei meu queridinho, quando poderei te beijar sem ser nas cartas? Sua pombinha, sua bonitinha, sua engraçadinha", assinava-as. E lá dos campos ensanguentados do Paraguai, Gastão respondia: "Minha bem amada." Ele enviava-lhe fios de barba; ela retribuía com cachos do cabelo. Inexorável, o tempo corria. Mas filhos... nada!


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