Artigo

Freud - uma vista d'olhos

15 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Eles são seis: Mathilde, Jean-Martin, Oliver, Ernst, Sophie e Anna. Observando o modo como Sigmund Freud quis nomear filhos e filhas, segundo pessoas conhecidas, mestres e amigas que ele fazia reviver por meio deles e delas - como revenants, conforme sua própria expressão -, não podemos deixar de nos interessar pela questão dos nomes próprios, aliás retomada de modo incisivo no livro Totem e tabu. Com efeito, o nome próprio tem muito mais significação inconsciente do que se poderia imaginar. Mais: ele ainda conserva, mesmo em nosso mundo racional, algo do antigo poder mágico que detinha. O próprio Freud modificara o seu próprio nome ao ingressar nos bancos universitários, ao transformar Sigismund em Sigmund. Frequentemente, assinava Sigm para abreviá-lo.

Enquanto a tradição judaica da Europa central ditava que os filhos fossem chamados pelos nomes de algum parente falecido, Freud quis emancipar-se do velho costume. E, na carta que escreve a Emmelina e Minna Bernays, em outubro de 1887, na qual anuncia o nascimento de sua filha primogênita, ele revela as razões da escolha do nome de Mathilde. Ao dar-lhe o nome da esposa de Breuer, Freud não esconde seu reconhecimento pela constante solicitude que o casal lhe demonstrara e mesmo pelo auxílio financeiro que lhe oportunizara em época difícil da sua vida.

Em diversos momentos de seus estudos, Freud ensina que seus próprios filhos são também revenants. E como se deve entendê-lo? Isso se explica pelo modo como escolhera nomear sua descendência. Não segundo a moda do momento, nem segundo tradições familiares ou religiosas, como escrevi. Freud antes quer perpetuar, por meio dela, a memória de entes queridos, de mestres ou de amigos.

Entre o filhos: Jean-Martin, cheio de humor e ironia, é uma homenagem ao doutor J.M. Charcot, que fora para Freud um mestre na observação clínica quando da sua estada no Hôpital de la Salpêtrière, em Paris; Oliver, engenheiro civil, é uma reverência à memória de Oliver Cromwell, que advogara com firmeza a favor dos judeus na Inglaterra; Ernst, charmoso e elegante, um preito a Ernst von Brücke, considerado o fundador da fisiologia austríaca, "a mais alta autoridade que Freud jamais encontrara", e também a Ernst Fleischel, figura aristocrática, que parecia dotado de todos os dons e cuja morte prematura o atingira profundamente.

Quanto a suas filhas: Mathilde, a mais velha, bonita, elegante e generosa, recebeu o nome da esposa de Josef Breuer, pelas razões já apontadas; Sophie, a mais bonita - "filha de fim de semana", como Freud costumava dizer -, ganhou o nome da sobrinha do professor Hammerschlag, na casa de quem, quando jovem, ele se iniciara nos segredos das Sagradas Escrituras; e Anna, a caçula, a mais intelectualizada, sua "Antígona", devera seu nome à filha deste mesmo professor e talvez também a sua tia, Anna, casada com Eli Bernays, graças a quem Freud conhecera Martha, sua esposa.

O que permanece mais evidente, por parte de Freud, no ato de nomeação de sua prole, é seu desapego pela figura paterna e a denominação segundo critérios de estima e amizade, libertos de qualquer preconceito religioso ou nacional. Se nele persistia alguma crença, era a de transmissão dessas qualidades como as figuras substitutivas de pais livremente eleitos.


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