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Freud-Simões: a análise

18 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - prosasousa@gmail.com

No baú do Freud descobriu-se, em 2017, correspondência reveladora entre o pelotense e o austríaco, trazendo à luz uma insuspeitada viagem do Professor a Pelotas, aqui permanecendo por dois meses, setembro e outubro de 1905. Há inquietação entre os simoneanos, pois não encontraram, até o momento, registros do capitão sobre sua experiência com Freud. O impulso e o zelo missivista parece ter sido muito mais intenso no visitante, tanto que guardava as duas breves cartas do capitão, pouco cuidadoso para a correspondência.

Freud, sabemos todos, tudo registrava em detalhe nos seus diários, desde os próprios sonhos, bem como sonhos e diálogos com os pacientes, material que permitiu-lhe elaborar uma obra monumental de 25 tomos, com milhares de artigos, fora os livros de cartas trocadas com gente como Thomas Mann, Virginia Wolff ou Albert Einstein ou sua mulher, Martha. Era incansável documentador.

Pois além da surpresa freudiana à nossa cidade, há criteriosos documentos de que Simões analisou-se com Freud por esse período de dois meses, na razão de seis sessões semanais, como era hábito do professor: análises intensas e breves. Simões compareceu a 47 sessões, no Grande Hotel, que hospedava o mestre. Faltou apenas uma vez, por ter que comparecer à Estância da Graça, assuntos de família.

Ao que parece, era razoavelmente pontual, mantendo-se inquieto no divã e divagando com frequência, diz o registro. Falava sem travas e sem maiores cuidados. Levava em conta, talvez excessivamente, que Freud entendia espanhol.

Ajuda saber que regulavam de idade: o analista estava com 49 e Simões, com 40. Na sessão de 14 de setembro, uma terça-feira, Simões, antes mesmo de deitar-se, foi dizendo: "Sou tapejara, sei tudo, palmo a palmo". Freud ficou silencioso, apenas pigarreou e considerou se não haveria algo de grandioso nessas palavras. Simões se apercebeu que "tapejara" seria uma incógnita e que Freud poderia ficar confuso - como ficou - se era Simões que dizia ou se era o personagem maior, Blau, que falava. Blau era agradável para ouvidos vienenses, pois era como azul, em alemão. Aliás, diz Freud, esse foi um ponto de inflexão linguística, que muito aproximou a relação de ambos. Há uma observação de que chegaram a brincar com o termo, ora significando azul, ora o nome próprio.

Um pouco adiante, com humor, Freud perguntou a Simões: "Es usted Blau?" Parece que Simões ficou em silêncio, e caiu em reflexão.

Na vigésima sessão, Simões se abriu: "Sempre dói na alma mexer nessas lembranças...", Freud aquiesceu, estava de acordo com suas investigações. Adiante seguiu Simões: "Preferi minha pobreza à riqueza da onça de ouro furada pelo condão". Freud valorizou só a primeira parte, lembrou-se do Quixote, e por desconhecer "onça de ouro".

O ponto alto ocorreu ao trazer Simões: "... o coração às vezes trepa dentro da gente, o mesmo que jaguatirica por uma árvore acima!..." Freud enterneceu-se. "Simões/Blau caminharia só. Adeus."


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