Artigo

Fora do ar

03 de Dezembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Nery Porto Fabres - professor

Pareço aqueles aparelhos de televisão que ocupavam as salas de estar na década de 70, não que eu faça aquele chiado ou assemelho-me a um enxame de abelhas malucas, tampouco visto apenas preto e branco e reajo a impulsos neurológicos com movimentos disformes. No entanto, fico sem imagens em minha mente. Ou seja, estou convicto de estar fora do ar.

Baseio-me na linguística para chegar a esta conclusão. Porque ela nos diz, segundo Saussure, que criamos uma imagem psíquica quando ouvimos um som, é a tal da arbitrariedade linguística, onde cada palavra ouvida gera uma informação ao cérebro que imediatamente forma uma imagem, como se estivesse materializada a palavra dentro de nossa mente.

Em um tempo passado, em sala de aula, eu usava as palavras para despertar curiosidade aos alunos quanto ao modo que fixamos as mensagens em nosso sistema de memorização. O engraçado é que eles não entendiam o propósito daquilo, e aos poucos entravam involuntariamente neste jogo de entender, desconhecer, compreender, estranhar, pesquisar, e aprender o sentido da comunicação falada e escrita.

A reação deles quando se pede para mentalizar a palavra jacaré e vinha a imagem deste bicho em cor verde é arrebatadora. Estas habilidades que os professores têm em despertar o aprender de forma eficaz foram significativamente excluídas neste novo século, o 21. Claro, não por desinteresse de todos os professores pelo ensino, mas por falta de um sistema educacional que realmente fosse voltado à educação.

Hoje em dia se quer falar de políticas educacionais voltadas aos governos passageiros, não se pensa no transmitir conceitos perenes. A transitoriedade dos gestores públicos tornou as escolas e universidades em campos políticos, de grupos lutando por poder. Com isso a Educação ficou em segundo plano, tornou-se um juízo de valor de cada professor. Somando-se a isso que cada novo mandato presidencial carrega para dentro do Ministério da Educação novas políticas educacionais.

Então, estou fora do ar. Não me arrisco em querer discutir política, dar pitaco em trabalhos de colegas de profissão e não frequento mais nenhum modelo de reunião social. Este comportamento de optar por desligar-me do mundo real talvez seja alguma anomalia sob o julgamento de muitos. Porém, como existe esta disfunção cognitiva presente no mundo da comunicação, pode até ser que eu esteja certo em agir desta forma, ficar fora do ar. Porque ficar sem receber muitos sinais barulhentos que não formam imagens psíquicas sadias em meu cérebro é a forma mais saudável de se envelhecer.

E aqui estou, desligando os aparelhos que captam informações faladas, somente quero ler textos com o crivo dos melhores do ramo jornalístico, se for para sair do campo jornalístico será para entrar nas obras dos grandes escritores, grandes em sentido curricular. Quero certificar-me que estarei lendo algo que faça sentido e não essas babaquices faladas em redes sociais de políticos e sites de professores militantes de partidos que lhes deem conforto e destaque social.

Não estendo mais a minha antena de captação de sinais analógicos do século 20 para captar baboseiras digitais deste século xexelento. Crescer, evoluir, alcançar a sapiência não quer dizer ter de se dobrar às maluquices, às bizarrices ditas por todos os cantos deste pavoroso modo atual de comunicação barata, insossa, de baixa frequência mental.

Por isso, fico aqui sentado ao jardim com meus livros, meu cão, meu gato e somente saio com a certeza que será para falar coisa de suma relevância com alguém que saiba falar sem dar chilique ou que não defenda psicopatas em nome da política. De resto fico fora do ar.


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