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Fidalgo de uma banda só

23 de Outubro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Sergio Cruz Lima

Em tempos idos, era comum o uso da expressão "fidalgo de uma banda só". Mas, qual a origem da expressão? Bem, há várias versões. Registro uma muito interessante, nas palavras de Gustavo Adolfo Luiz Guilherme Dodt da Cunha Barroso, ou simplesmente Gustavo Barroso. Advogado, professor, museólogo - foi diretor do Museu Histórico Nacional -, político - foi membro da Ação Integralista Brasileira -, folclorista, cronista, ensaísta, romancista e membro atuante da Academia Brasileira de Letras, da qual foi diversas vezes presidente, Barroso, considerado o mestre do folclore nacional, é autor de diversos contos e, entre eles, Fidalgo de uma banda só, escrito na revista O Cruzeiro, edição de 8 de janeiro de 1955.

"No início do século 19", diz Barroso, "quando o Estado da Paraíba era governado por Amaro Joaquim, um político de grande prestígio social e um cidadão muito enérgico, alguns indivíduos mascarados costumavam sair, na calada da noite, para praticarem toda sorte de badernas, as quais assustavam os habitantes da capital paraibana. O governador expede severa ordem ao chefe de polícia para que meta no xadrez qualquer indivíduo que seja encontrado embuçado ou mascarado. As ordens são meticulosamente cumpridas. Meia dúzia de arruaceiros é presa. Entre eles, o severo governador identifica filhos de gente importante da capital Piauí: os playboys da época".

"Em verdade", continua Barroso, "no grupo aprisionado encontra-se um tal Nogueira, que se diz fidalgo pelo lado paterno, embora não o seja pelo lado materno. Nogueira é um malandro da pior espécie, implicado até mesmo em assassinato. Conduzido à presença do governador Amaro Joaquim, o jovem vigarista lhe fala que está impedido de receber castigos, uma vez que é filho do 'senhor fulano de tal', figura de proa na sociedade paraibana. Enrolado num dilema, Amaro Joaquim pensa, pensa e considera que o tipo é mesmo perigoso em razão da posição social e da fortuna paterna. Mas Nogueira precisa ser castigado. E o governador sabe que ele será castigado. A punição é uma surra de chicote, em praça pública, com o malandro devidamente amarrado ao pelourinho como qualquer escravo e o degredo por dois anos em África, conforme o caso".

"É então", conclui Barroso, "que o governador Amaro Joaquim toma uma decisão surpreendente: como Nogueira se diz nobre, pelo lado paterno, e plebeu, pelo lado materno, ele deverá indicar qual é o seu lado plebeu, para ser açoitado; a parte nobre ficará isenta de qualquer castigo. Até hoje não se ficou sabendo se o malandro indicara o lado plebeu, mas o certo é que a sentença é executada de um lado só. Ele apenas leva uma boa surra no lado pertencente ao povo. Daí a expressão 'fidalgo de uma banda só'", no pensar de Gustavo Barroso.

Se a moda pegasse, caro leitor, que bom seria, não? Não creio que os "playboys" do século 21 andariam por aí tão desprecatadamente...


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