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Ficamos por aqui

09 de Dezembro de 2019 - 05h01 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Hospital Espírita de Pelotas - prosasousa@gmail.com

A expressão "ficamos por aqui" era a forma cordial que Luiz Felipe Ustarroz tinha para encerrar a primeira reunião matinal do Hospital Espírita, HEP. Como de hábito, pontualmente às 7 e 45 da manhã ele convocava a equipe multidisciplinar e, então, repassávamos todos os acontecimentos registrados do dia anterior. De entrada aquilo me pareceu um hábito salutar, onde se partilhavam as ocorrências significativas do dia de ontem, planejando a execução da jornada que se iniciava. Todos opinavam livremente, o que intensificava a integração da equipe, fato indispensável para quem realiza tão árduo trabalho - atender a quem sofre - compondo o cotidiano do hospital.

Mas, antes dessa reunião, a partir das 7h da manhã, reuníamos com Felipe a trocar ideias sobre o exercício complexo da Medicina e dos percursos da docência que ele tanto amou. Era visível o interesse e o gosto que lhe despertava comentar sobre seus alunos da UFPel, as interações amistosas e próximas com eles, o futebol, os churrascos, as homenagens repetidas. Um professor.

Desfrutávamos ao debater aspectos culturais que serviam de veículo para ações médicas específicas. O diálogo com os pacientes e com a equipe de atendimento era, permanentemente, motivo de atenção. Lembro de quando, repetidas vezes, nos ocupamos de Fernando Pessoa e os seus desassossegos - nas variadas versões do Livro do desassossego - que, nos parecia, abria caminhos para psiquiatras atarefados. Uma das passagens era de particular interesse: "Nunca a alheia vontade, inda que grata, cumpras por própria. Manda no que fazes. Nem de ti mesmo servo. Ninguém te dá quem és. Nada te mude. Teu íntimo destino involuntário cumpre alto. Sê teu filho".

Debatíamos à exaustão os questionamentos de Pessoa, e parecia-nos tão verdadeiro - e tão pouco discutido - essas questões do relacionamento consigo próprio. Concordávamos que esse deveria ser um tema central para psicoterapeutas contemporâneos.

Mobilizado por questões dessa natureza e pelas inquietações despertadas com seus pacientes, Felipe deixou-nos editado um livro significativo sobre o "Homem prisioneiro de si mesmo", no qual ele se ocupou do sofrimento psíquico cotidiano, despertado por reações pouco adaptadas, isto é, mais primitivas, que as pessoas lançam mão durante etapas da vida adulta. Acreditava que o paciente, ao dar-se conta dos motivos infantis pretéritos de suas ações no presente, vivenciava esse tipo de insight como uma libertação.

Fez uma intensa formação psiquiátrica e freudiana no HEP, onde entrou como interno, passou por todas as etapas e chegou a diretor médico. Nesse sentido interessa saber que o primeiro diretor médico do Hospital foi o psicanalista Avelino Costa, pioneiro no Rio Grande, que trabalhou inicialmente em Pelotas e radicou-se, logo, em Porto Alegre, tendo sua formação realizada em Chicago, com Franz Alexander.

Felipe Ustarroz, psiquiatra competente e dedicado. Amigo veraz.

 


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