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Felonia em Vichy

18 de Janeiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

A guerra de 1914/18 foi uma "guerra de trincheiras"; a guerra de 1939/45, quando as tropas nazistas cruzam a linha defensiva de Maginot e se precipitam com violência sobre a França, é uma "guerra relâmpago". A Bélgica capitula. Os britânicos são evacuados de Dunquerque. Em 14 de junho de 1940, os alemães entram em Paris. A capital está deserta. O pânico obrigara dois milhões de parisienses a fugir da cidade e a unir-se a outros seis milhões provenientes do norte do país em marcha para o sul, carregando seus bens em carroças, carros, bicicletas ou quaisquer outros meios de transporte ao seu alcance. Para pôr fim às hostilidades, o marechal Pétain, herói da 1ª Guerra Mundial, aos 83 anos de idade é convocado para o governo da França. Mas comete um erro. Após nova subdivisão do país, que desenha uma França quase "merovíngia" por sua brutalidade, a metade norte é ocupada por tropas nazistas, a Alsácia e a Lorena são reintegradas ao Reich, enquanto, no sul, Pétain estabelece o Etat français, com capital em Vichy. A França está dividida. 

A França de Vichy situa-se acima das contendas políticas e tenta elaborar um novo regime ao qual os franceses de bonne foi possam aderir. Na prática, porém, ela se revela um dos governos mais partidaristas da história francesa. E o ano de 1940 simboliza a derrota dos valores republicanos que haviam dominado o governo francês desde a Revolução Francesa. Pior: o novo regime tenta retroceder no tempo até os dias da França tradicional, clerical, autoritária e paternalista. O lema Travail. Famille. Patrie substitui o emblema de 1789: Liberté. Égalité. Fraternité. Eleições são permutadas por nomeações. Cultiva-se uma autêntica mística de caudilhismo, sobretudo em organizações juvenis de Vichy. Sindicatos são proibidos. Comunistas e funcionários dissidentes são perseguidos. Fomenta-se uma postura nacionalista que justifica ataques contra judeus, maçons e demais "estranhos".

Por ocasião do julgamento de Pétain, realizado ao fim da guerra, o marechal alegará que sua intenção fora salvar a França de um destino similar ao da Polônia. Mais: formar um "escudo" de defesa contra os piores excessos da ocupação nazista. Se há algo de sincero no plano, isso logo há de se revelar pouco convincente depois que Pierre Laval, seu colaborador maior, toma as rédeas de um regime que se há de mostrar empenhado em fazer parte da "nova ordem" hitleriana.

Em 1942, o sul é ocupado pelo exército alemão. O antissemitismo se converte em política de estado. Cerca de 150 mil franceses são deportados. A criação do Service du Travail Obligatoire implica o recrutamento obrigatório de força de trabalho para a indústria alemã. Quase 500 mil trabalhadores são transportados para a Alemanha, onde se unem a 1.600.000 prisioneiros de guerra e outros deportados. As fábricas francesas laboram sob as ordens nazistas. Em 1943, cria-se a Milice, um organismo policial cuja meta principal é a perseguição de membros das organizações da Resistência e, pela vez primeira desde os tempos do Antigo Regime, utiliza-se a tortura sistêmica. No ano seguinte, quando o regime de Vichy é finalmente derrubado, ele se constituíra num legítimo Estado policial. Mais: um Estado colaboracionista nazista em pleno rendimento. Em 1945, um tribunal militar acusa Pétain de alta traição e o condena à pena de morte. A pena é comutada por De Gaulle em prisão perpétua na ilha de Yeu. Ali o marechal falece. Mas há outra França, brava e intimorata, que não se deixa vencer: a França de De Gaulle! Bem, mas isso será tema para outra análise.


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