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Falta faz o Schlee

29 de Novembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental, Hospital Espírita, TAO, Therapy and Art Organization, EUA-Brasil prosasousa@gmail.com

Imagine o amigo receber um jornal onde lesse a notícia: "pois o guasca, depois de tirar uma lechiguana num friozaço de agosto, não é que naquela madrugadita o gateado escarceador levou uma rodada feia, costeando o perau, dando de plancha no chão duro, mas o bagual velho não se apertou e saiu lampeiro, com a rédea na mão, sem nem embarrar as botas de garrão de potro com as chilenas espetaclentas".

"Não era de gostar de balaca, nem gastava pólvora em chimango, mas qualquer dar com aquela palha ele mordia o barbicacho e, tapeando bem o chapéu, olhava de frente a frente, como boi brazino, e tirava a limpo qualquer assunto de modo o vivente não ficar com alguma pulga atrás da orelha. E não sossegava o pito até que tudo ficasse claro como água de arroio, correndo em cima do pedregal."

"Também não botava os aperos em qualquer matungo piqueteiro, nem se lembra de algum dia ter montado algum cavalo molóide, ou que tivesse mata no lombo, muito menos se fosse baio, pelo que não era de seu agrado. Sempre deu preferência a cavalo inteiro e aos de pelo mouro ou, no máximo, tordilho negro ou, vá lá, algum zaino malacara."

"Pra deixar bem claro para o pessoal, nunca foi malevo nem entonado, mas também não levava desaforo pro rancho. Nunca se viu em situação de matar cachorro a grito, nem era de tomar mate encilhado, mas sempre foi parceiraço pra uma campereada buena ou pra lonquear couro em dia de chuva".

Caso o amigo não troteie com soltura pelo linguajar pampeano-Sul-Rio-Grandense e se ficou cabreiro com o dialeto acima, recomenda-se, fortemente, compulsar o magnífico Dicionário da Cultura Pampeana Sul-Rio-Grandense, pela Fructos do Paiz, 2019, de Aldyr Garcia Schlee (1934-2018), trazendo às claras e às veras o texto abagualado.

Schlee faz falta nestes pagos não só por ter sido um professor incomum, desses que os alunos recordam para sempre, mas também por cumprir, pampeanamente, como escritor inquieto e criativo, com seus inúmeros prêmios por textos de forte densidade psicológica e complexidade das personagens. Ele explica que seu Dicionário é "de tendência e de natureza enciclopédica, pois abrange vários domínios do conhecimento relativos à cultura pampeana, em geral; e ao linguajar e costumes campeiros em particular - incluindo crenças, medicina, fraseologia, história, geografia, economia, expostos de maneira ordenada..." (pág. XLIX). Dizem que todo escritor invocado deseja algum dia fazer seu próprio dicionário. Seria uma forma de expor, em pormenor, sua visão de mundo, e fazê-lo de forma ordenada, tanto para si próprio, quanto para os demais.

O Dicionário Schlee é obra maior. Quase mil páginas, em dois volumes primorosamente editados, ele transita em detalhes sobre a fauna e a flora da região, dando ainda pormenores gastronômicos no cozimento de um saboroso mondongo.

Schlee, escritor pampeano de muitos amigos.


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