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Fakenews: raízes

10 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa
Piratini, terceiro distrito prosasousa@gmail.com

O termo é novo, mas suas raízes vêm de longa data. Desde sempre a moçada obedece ao impulso de mentir, seja para livrar-se da estaca, seja porque - constatam os filósofos - não temos acesso direto à realidade, portanto, resta-nos inventá-la, interpretá-la, representá-la, funções que, inescapavelmente, contam com o ingrediente da mentira, ou, para almas sensíveis, do fantasioso.

Ninguém menos que o professor Nietzsche ocupou-se do assunto. Nos idos de 1878, ao escrever seu Humano, demasiado Humano ele nominou a questão como ‘meio-saber’, e no parágrafo 578 ele explica que ‘o meio-saber é mais vitorioso que o saber inteiro: ele conhece as coisas de modo mais simples do que são, o que torna sua opinião mais compreensível e mais convincente’. O inventor de realidades, vê-se aí, é capcioso e esperto, pois sabe que simplificar o que é complexo e, assim, torná-lo com aparência, apenas aparência, mais apetecível, é do agrado das multidões. Tivesse o filósofo intuído a forma pandêmica a que chegariam as comunicações atuais, e o potencial danoso que alcançariam, mais atenção ainda teria dedicado aos criadores de realidades, isto é, os mentirosos profissionais.

Personificando o meio-saber, Nietzsche revela mentiras em cascata: primeiro, o meio-saber declara-se vitorioso sobre o saber inteiro, mas, na verdade, é apenas uma sensação, falsa sensação de saber, ligado que está à preguiça de alcançar um saber inteiro, mais trabalhoso. Prefere-se a lei do menor esforço. O segundo engano vai embutido na imagem de ‘mais compreensível’, quando em verdade o que se fez foi, ardilosamente, deixar de lado o que não é útil para meu argumento, que quero, convença o outro, sublinhando apenas a aparência simples e lógica, ainda que falsa.

Por último, o componente de convicção. Aqui o professor nos remete ao parágrafo 637, do mesmo livro, apontando que ‘é das paixões que brotam as opiniões; a inércia do espírito as faz enrijecer na forma de convicções’ (itálicos do autor). Ressalte-se que convicção nem de perto é sinônimo de verdade, mas quem está totalmente convencido de algo dispõe de uma sensação de descanso - embora falsa paz - que aquele que permanece na dúvida não desfruta. Nas palavras do filósofo: ‘convicções são inimigas da verdade mais perigosas que as mentiras’. Em tempos de radicalismos, como estes, é fácil mergulhar em estados passionais, cujo produto final costuma ser uma convicção inamovível.

Os empresários de fakenews medram perfeitamente nesses pântanos. A noção de que nossas opiniões - percebidas por nós como isentas e ponderadas, quase santas - brotam, na verdade, na lavoura de nossas paixões, é um alerta valiosíssimo para estes tempos. Simular verdades não é difícil, vendê-las mediante recursos digitais virais, mais fácil ainda. Basta a apetência para o mal. E o mal, diz o pai de D. Quixote, é o mais fácil de aprender.

Cloroquina? Não. Nietzsche. Não é tempo para medricas.


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