Análise

Eu venci a tradição

Em nosso Estado, o espinhaço de ovelha só pode ser cozido em panela de ferro e acompanhado por batatas; decidi espetá-lo e jogá-lo às brasas

21 de Maio de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Jarbas Tomaschewski
jarbas@diariopopular.com.br 

Infringi um artigo da Constituição Paralela Gaúcha e recebi, num churrasco lá em casa, olhares reprovatórios. Decidi espetar um espinhaço de ovelha e jogá-lo às brasas, ato que, no Rio Grande do Sul, permite ao Comitê Culinário Gaudério (CCG) me amarrar pelas pernas e me arrastar à praça mais próxima, onde corro o risco de ficar amarrado em um poste até o 20 de Setembro ouvindo desaforos. Nosso Estado não aceita loucuras com o espinhaço de ovelha. Por aqui ele só pode ser servido cozido em uma panela de ferro, acompanhado por batatas. Qualquer aventura fora desse receituário é considerada afronta. As antigas gerações pulam dos caixões, o minuano sopra gelado em duas frentes e os quero-queros levantam voo e gritam na madrugada. O que fiz atrai a desordem.

Mas finquei o facão no toco, como um gaúcho teimoso, e assei sem pressa o pedaço de carne mais tradicional dos pampas. O chato dessa história foi ouvir o que não foi dito, mas estava estampado no rosto de quem aguardava desconfiado.

- Espinhaço de ovelha assado? Nunca vi isso. Bom mesmo é com batatas.

Comentários invisíveis que me deram força para continuar. Virou questão de honra servir o melhor prato da vida àqueles que não estão abertos a novas experiências gastronômicas, ditadas pelo Grande Livro da Cozinha Rio-Grandense. Meus olhos não desgrudaram do espeto durante quase uma hora. No primeiro sinal de fogo mais forte eu agia. Atacava antes de qualquer acidente. Empurrava o carvão, controlava as chamas, manuseava o pingar da gordura para o local apropriado.

Aos poucos o cheiro da carne de ovelha foi ganhando força e tomando conta do ambiente. E os rostos fechados já salivavam, aceitavam sorrisos, provocados com aperitivos para abrir ainda mais o apetite. Até que dei por encerrada minha afronta. Fatiei milimetricamente cada pedaço, com o osso e a porção de carne correspondente.

Foi uma das poucas vezes em que não ouvi elogios. Todos comeram sem o tradicional puxa-saquismo do assador - acho que para não admitirem a derrota -, mas a disputa pelas tiras e o quase nada das sobras provaram, ao final, que eu havia vencido a luta contra a tradição. Um espinhaço de ovelha pode não ser a melhor carne para ir à churrasqueira, mas quem aceita e passa com louvor por esse desafio deve ser respeitado. E até agora me exibo.

- Com batatas, em um fogão, qualquer um faz. Quero ver é assar e deixar as pessoas com vontade de quero mais.


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