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Estética Sul

11 de Junho de 2018 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - Piratini prosasousa@gmail.com

Sul que se opõe a Norte. Contrário do Norte. Tudo a ver com o Sul. Nada a haver com o Norte. Não mais necessário nortear-se na vida, como ensinam eles e, sim, sulear-se, como, a seguir, demonstro. Suleêmo-nos, pois.

Quem disse que estamos do lado de baixo do Equador? Foi cochilo do Chico Buarque. Quem disse que o Norte é em cima e o Sul, embaixo? Se redonda é a Terra, onde é o em cima e onde o embaixo dessa bola? Os mapas foram inventados pelos nossos, por assim dizer, irmãos do Norte, que se autossituaram numa parte suposta superior. Por sorte tivemos o Joaquín Torres-García, o pintor uruguaio que, num porre de Sul, nos desenhou na posição correta: a América do Sul acima do Equador e nesse seu mapa faceiro, com aquela ponta e aquele monte de ilhas circunstantes voltadas para o topo, hoje logotipo da Galeria Sur, em Punta del Este. Não conheces? Nada sabes do Sul.

É bom aqui no Sul porque somos lindeiros com o Uruguai. A troco de nada vamos à República Oriental comprar queijo ou comer uma parrilla ou só acastelhanar-nos breve e perenemente. Nesta época também é bom porque começa a levantar o minuano, matreiro vento que, chegando forte, corta a roupa e trespassa o tio de ponta a ponta e assobia na fresta da porta. Não há pala que combata. Mas, é no minuano que se tempera o gaúcho. Pois temos neste céu Sul o Cruzeiro, que nos orienta navegações em água e na metáfora, abrindo caminhos ao Sul. Os do Norte se orientam pela estrela Polar que, ao contrário do conjunto estelar do Cruzeiro, ela, Polar, joga sozinha. Aqui, não.

Ninguém passa pelo Sul sem acotovelar-se com Borges ou com Érico. O Sul é contagioso e não tem vacina. No conto Sur o portenho explica que dentro de Buenos Aires busca-se o Sul cruzando pro lado de lá da avenida Rivadávia, justo onde começa o Sul e vai terminar num sem fim e numa peleia de arma branca - sabor de Borges - onde um gaúcho viejo com bota de potro e chiripá, ampara a Juan Dahlmann, atirando-lhe, por estar este desarmado, uma adaga desembainhada, para poder enfrentar-se, mano mano, com uma rapaziada alegre de álcool naquela venda. Dahlmann provavelmente não saberá manejar a arma, mas sai à luta. É a morte que teria escolhido.

Os ventos e os tempos deste Pampa, embalando famílias e justiças sonhadas por Érico, pelearam por ideais altaneiros, usando armas e semblantes dignos. Gente pampeana, Érico e Borges, orientados pelo Cruzeiro do Sul, dão molde a uma estética que amalgama nobreza de alma e parceria de gente, pois aprende-se que só em conjunto se doma com energia, mas de jeito gentil, o potro. O crioulo assim domado fica mais destemido que o mustang, é que este só tem a estrela Polar a olhar e, como ela, fica mais solitário e sestroso. O frio tem uma estética. O Sul é uma estética. Convém ao Norte aprender, se puder, a sulear-se, buscando ser mais livre e menos medroso. O Sul garante.


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