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Estamos vulneráveis às mudanças climáticas

30 de Julho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Marcelo Dutra da Silva - Ecólogo dutradasilva@terra.com.br

A notícia de que seríamos atingidos por uma massa de ar polar e frio congelante gerou muita preocupação. Apesar do pelo duro, como já dizia o velho gaiteiro, e da nossa impressão de resistência, já que estamos mais expostos às baixas temperaturas comparado a outras regiões brasileiras, não estamos preparados para episódios de frio extremo, ventos fortes, precipitações volumosas, secas prolongadas e ondas de calor. Estamos sendo alcançados pelos efeitos das mudanças climáticas e aos poucos estamos descobrindo nossas vulnerabilidades.

Antes de seguir quero destacar a pronta resposta do município que, diante da expectativa de frio intenso, providenciou abrigo e acolhimento para pessoas em situação de rua e seus animais de estimação, no interior do Colégio Municipal Pelotense. Também, o trabalho realizado pela Secretaria de Assistência Social, sob o comando do Dr. José Olavo Passos, que tem feito da abordagem social um instrumento de ajuda e apoio de garantia de direitos. Um trabalho diário e muito bonito de proteção social básica que atende pessoas e famílias em situação de vulnerabilidade. Mas não é este o ponto, exatamente.

Vivemos em uma cidade carregada de problemas, que somente serão resolvidos a partir de investimentos significativos em infraestrutura, sobretudo no saneamento básico. E o cenário sugere um esforço adicional de adaptação climática, que nem de longe vem sendo considerada no nosso planejamento urbano. Aliás, este é um debate que precisamos começar a construir, para captar o máximo de engajamento social no enfrentamento das mudanças e dificuldades que estão por vir.

Pelotas cresce e não estamos discutindo os riscos envolvidos na ocupação irregular dos ambientes de margem, tampouco os prejuízos da expansão da cidade sobre áreas úmidas remanescentes, que vão muito além da supressão de habitats e extermínio de populações raras de peixes anuais. Edificar sobre áreas úmidas (de campo e banhado) compromete serviços ambientais importantes, o principal, o efeito esponja, que se traduz na capacidade de reter grandes volumes de água e dissipar a energia da carga de inundação, prevenindo cheias e alagamentos. Portanto, estamos fazendo justamente o contrário do que deveríamos, considerando eventos extremos de precipitação, a impermeabilização do solo com quilômetros de asfalto e um sistema de drenagem pouco eficiente, que não acompanhou o crescimento da cidade e que por vezes se mostra obstruído pela sujeira, pelo lixo e que está misturado com o esgoto, sem tratamento, expondo todos ao perigo.

E se não estamos preparados para os dias de chuva, o período de seca é ainda pior. A nossa estação de tratamento de água do São Gonçalo continua em obras e não existe um prazo seguro para que entre em operação. Até lá, vamos continuar dependendo, basicamente, da captação na barragem do Santa Bárbara, que responde por mais de 60% do nosso abastecimento. Há pouco tivemos uma experiência ruim de um forte esvaziamento da barragem (em maio de 2020) que nos colocou em alerta e na iminência do racionamento, mas nem isso fez acelerar as obras. E tudo indica que vamos enfrentar, nos próximos anos, novos períodos de estiagem.

De outra parte, se a seca preocupa, o calor intenso e prologado do verão também. As árvores estão sumindo de nossas ruas, avenidas e praças. E quase não se vê reposições. São as árvores que garantem sombra, menos ruído, ar puro e conforto térmico para quem vive na cidade. E mesmo que iniciativas recentes estejam tentando estimular o interesse pela arborização urbana, são ações tímidas, comparadas ao corte clandestino e autorizado, que é quase diário, enquanto árvores mal cuidadas e doentes, que ameaçam cair sobre nossas cabeças, não são substituídas. E sem árvores não vai dar certo.


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