Editorial

Estado de letargia

23 de Fevereiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Se você não tem o hábito de olhar com mais atenção para gráficos e tabelas, seria importante que o fizesse quando se trata da Covid-19. E, se permite mais uma recomendação, trace comparativos entre o que estamos vivendo hoje e períodos anteriores dessa crise sanitária que se aproxima de um ano de duração sem qualquer perspectiva de fim.

Ao aplicar esse olhar, certamente você confirmará o pior. Infelizmente. Isso porque os principais dados disponíveis sobre a pandemia no Rio Grande do Sul e na região de Pelotas apontam para sério agravamento do cenário. Vale a pena citar alguns dos números que ressaltam esse alerta.
Começando pelos que se referem ao Estado. Em julho do ano passado, a média de internações em leitos clínicos e UTIs era de 64 pessoas por dia e, próximo ao final do ano, no que chegou a ser chamado de "segunda onda", subiu para 67 por dia. Números que, naqueles momentos, foram considerados muito preocupantes. Agora, contudo, essa média chega a 170 gaúchos hospitalizados diariamente com o coronavírus. Hoje, mais de 85% das vagas em UTIs Covid-19 estão ocupadas. Em diversas regiões do Estado, a previsão é que dentro de uma semana o sistema de saúde colapse caso a doença continue no nível atual de descontrole.

Quando o olhar se volta a Pelotas, um comparativo também inquieta. No começo da segunda semana de agosto de 2020, quando a cidade se assustou com o avanço do vírus - inclusive decretando lockdown -, a média diária era de 45 infectados por dia, com um total de 1,3 mil casos confirmados. Hoje, essa média está em 120 diagnósticos de Covid-19 por dia, somando 21,4 mil que já contraíram (oficialmente) o vírus.

E porque esses números são tão marcantes? Mais do que apontar a óbvia progressão do coronavírus, eles trazem nas entrelinhas o quanto a sociedade está desatenta aos perigos da pandemia. Lá atrás, com razão, qualquer risco de contágio ligava o sinal vermelho, com a maioria da população reforçando cuidados de higiene e distanciamento e o poder público - sobretudo Estado e municípios - dando à situação maior relevância. Apesar dos descabidos (e falsos) conflitos entre saúde e economia, havia clareza do que estávamos enfrentando.

Entretanto, hoje, lamentavelmente, a sociedade como um todo parece ter entrado em letargia. Por mais que as informações estejam disponíveis diariamente na imprensa e em boletins públicos, a população dá de ombros ao problema. Nenhum alerta conscientiza. Não há relato de falta de leitos ou oxigênio em outros locais do país que convença. Morte alguma de pessoas próximas parece ser suficiente.

A curva de disseminação da indiferença é muito mais acentuada que a da Covid-19.


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