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Estações Rodoviárias - a quem servem?

12 de Setembro de 2019 - 08h09 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Lia Joan Nelson Pachalski - professora

O Brasil não possui uma malha ferroviária nem aérea que dê conta de transportar milhares de habitantes, seja para o trabalho, estudo ou lazer. Sem um carro, ou na eventualidade de preferir usar transporte público, restam os ônibus. Não tenho dados estatísticos, daqueles que aparecem na mídia a cada feriadão na televisão, mas o que vem ao caso é o tratamento dado aos usuários nas estações rodoviárias espalhadas pelo país.

Em uma viagem entre Santa Maria e Pelotas, com paradas em quase todas as cidades para deixar ou pegar passageiros, resolvi fotografar, da janela do ônibus, os prédios incríveis destinados para essas pessoas, eu inclusa, usuária que sou desse meio de transporte.

As construções são feitas para que nosso conhecido vento minuano sopre a cada fresta ou corredor existente, no caso do inverno que dura em torno de cinco meses. Nessas horas, o valente gaúcho se orgulha de estar trajando um poncho de lã e as botas de couro (que gelam os pés, mas protegem da umidade), mas os pobres mortais que não possuem um poncho, ficam a congelar em qualquer ponto da estação.

No verão, resta pedir um refrigerante ou uma água e tentar sentar em alguma cadeira, em um local que provavelmente terá um raio de sol atravessando ou nenhuma brisa passando.

As cadeiras, quando existem, são das mais desconfortáveis. Hoje, algumas empresas têm uma “sala VIP” para os passageiros “VIPs”.

Normalmente a arquitetura desses prédios é de tamanho mau gosto, que deve deprimir qualquer um que já chega com alguma tristeza envolvendo sua viagem. Se chegou alegre, provavelmente vai ignorar tamanha feiura até chegar ao seu destino - na casa da mãe, do namorado ou até mesmo da sogra.

Mas tudo isso poderia ser perdoado, não fosse uma contradição fenomenal que ocorre nas estações das cidades maiores. O passageiro, a razão de ser da estação, não tem um espaço adequado para esperar alguém lhe buscar. Normalmente o espaço nobre, que deveria ser destinado para os passageiros e usuários sentarem e esperarem um transporte, está ocupado por uma fila de taxistas, que ali jazem à sombra, onde corre a brisa do verão. Ai do motorista particular que queira um espaço para deixar uma pobre velhinha ou esperar seu avô na chegada. É multado, xingado pelos taxistas ou alguém vestindo esses coletes coloridos, que às vezes penso até que inventam. Uma hora dessas vou vestir um colete e sair apitando ali para ver no que dá.

Nossa capital, Porto Alegre, tem muito a evoluir e daria um grande exemplo de maturidade dos tempos se mudasse o comportamento estranho na estação rodoviária. Um passageiro, para atravessar a via, com uma mala na mão, tem oito segundos. Coitado daquele que tem um problema físico. Pode morrer atropelado se não correr em oito segundos. O mais importante é a passagem dos milhares de carros em alta velocidade para chegar à outra via importante para sair da cidade. Os passageiros que esperem. Ah, e quando conseguem atravessar, ainda com vida, se deparam com uma espécie de calçada, cheia de buracos, tentando serem vistos por alguém que poderá estar lhe buscando também.

Pode parecer uma bobagem, mas essa imagem da rodoviária de Porto Alegre acaba por refletir nosso país, nossos costumes, nossos valores. Corporativismo, falta de planejamento urbano, falta de valorização do espaço público e descaso com os usuários e pagadores de impostos, que são o motivo da existência de uma estação rodoviária. Quem não viu isso, ou finge que não vê, corrobora com a situação. Prefere nunca pegar um ônibus, até porque, isso não é status social aqui no Brasil ainda. Que preguiça.

Daria pra falar, ainda, da rodoviária da nossa capital, Brasília. Mas fica pra uma outra.


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