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Esta não é uma crônica sobre BBB

22 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Daniela Agendes - jornalista e mestra em Letras daniela.agendes@gmail.com

Comecei a escrever para o Diário pela primeira vez há doze anos _ na época, infelizmente não tive constância na escrita. Um dos primeiros assuntos de que falei foi Big Brother Brasil. O título daquele texto _ "Quando o reality não tem show" _ revelava uma edição morna do programa de 2010, diferente do que viria a acontecer em alguns anos posteriores. Por exemplo, quando a vencedora foi a bolsonarista Paula, aquela que tinha um porco como animal de estimação, em 2019. No ano seguinte, a turma da Manu Gavassi colocou o feminismo em pauta. Já no ano passado, foi a vez de falar de racismo e também da violência psicológica da cantora Karol Conká contra o ator Lucas Penteado.

Prometi e cumprirei _ este não é um texto sobre BBB. Goste do programa ou não, é inegável que o Big Brother dá o que falar e pensar. Nesse comecinho, ele já me fez refletir sobre a quantidade de mulheres que ganham as provas de resistência. Com frequência, são elas as vencedoras, a despeito de os homens historicamente levarem a fama de fortes.

Se quiser, uma mulher é capaz de desenvolver sua força física. Porém, ainda que as mulheres estejam se aproximando dos homens em algumas competições atléticas, há diferenças básicas, desenvolvidas ao longo de milênios. Eles continuam, em média, mais fortes: têm 40% a mais de força na parte superior do corpo e 33% mais força muscular na parte inferior, segundo reportagem de 2017 da BBC. E pesquisadores não encontraram nada no DNA que leve a diferenças intelectuais ou comportamentais significativas entre homens e mulheres, conforme estudo divulgado pela Veja, em 2019.

Nós mulheres teríamos, então, uma outra força misteriosa que ameaça a pretensa superioridade masculina? É possível pensar que as mulheres tenham desenvolvido forças como a mental e a emocional, e que esses sejam aspectos que ajudam as participantes a ganharem provas de resistência no Big Brother.

Viram só? O BBB foi só um gancho.

As características e habilidades ligadas à mulher são culturalmente desvalorizadas nesta sociedade patriarcal, de modo que, para um homem, demonstrar seu lado feminino é motivo de ridicularização. Não é que as características consideradas masculinas não tenham seu mérito; aliás, quando usadas com sabedoria e respeito, são bem-vindas. Todo ser humano carrega em si ambas as energias do feminino e do masculino, e a grande sacada é saber equilibrá-las, utilizando seus diferentes potenciais em favor de nossas vidas.

Mas o mundo é marcado pela disparidade entre os gêneros, que, longe de ser um fato natural, dado por diferenças biológicas, é resultado de construções culturais. Tal desigualdade é reforçada em cada piada de mau gosto, em toda propaganda que explora o corpo de uma mulher para vender cerveja, em cada relação na qual o homem regula o comportamento e a roupa de quem deveria ser sua parceira de vida, um ser igual, com os mesmos direitos.

Fizeram as mulheres acreditarem que eram os seres frágeis do planeta. Fomos induzidas, no decorrer da história, a crer que éramos mais fracas em outros aspectos da vida, para além do físico. Podem ter nos colocado nesse lugar, mas nós escapamos dele. Resistência é nosso sobrenome, e se quem estiver assinando for uma mulher negra, ele vem todinho em letras maiúsculas.


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