Ponto de Vista

Esta dívida não é nossa

Nos deixaram de herança as doenças e a orientação racista das classes dominantes, assim como as formas de subordinação e dominação, que se originaram com a invasão hispânica

20 de Maio de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Ricardo Rojas, jornalista

No último domingo, um dos maiores jornais do mundo, o espanhol El País, destacou o julgamento por genocídio do ex-ditador da Guatemala Efraín Ríos Montt. Na França, o Le Monde também fazia coro às denúncias de “violações massivas”, “horrores cometidos pelo exército contra a população civil” e “repressão sistemática” durante a ditadura militar na Guatemala. “O apartheid mais atroz”, confessou um conhecido jornalista espanhol, que visitou o país na década de oitenta.

De repente, a América Latina voltava ao palco, novamente como um campo de experiências, um dos maiores territórios de concentração de prisioneiros políticos de todo o mundo. Por alguns dias a história deste continente esteve encarnada na triste figura de Ríos Montt, um ancião fundamentalista que sentado diante dos juízes, negando constrangido os feitos que outrora lhe causavam orgulho, não conseguia angariar compaixão nem mesmo dos seus próprios cúmplices.

Não estava arrependido o pobre homem. Na verdade, o general, servidor antigo dos interesses estrangeiros, já havia há muito leiloado sua fé. Sob suas ordens, as tropas oficialistas formavam fileiras para violar mulheres indígenas até matá-las. Queimaram crianças, despedaçaram corpos ainda com vida. Comunidades Maias foram massacradas e mais de 200 mil pessoas morreram ou desapareceram durante o governo de Efraín Ríos Montt, um personagem folclórico, mais um carrasco dotado de soberana estupidez que escreveu, com o sangue das minorias, intermináveis páginas da história latino-americana.

De uma hora para a outra, no entanto, passamos de vítimas à réus. “A dívida histórica da América Latina com os direitos humanos”, estampou o jornal El País, ao final do julgamento. Pois causa estranheza o cinismo quando alcança voos mais altos. Afinal, esta dívida não é dos povos latino-americanos, mas sim daqueles que aqui desembarcaram, séculos antes, sedentos por ouro. Regozijando-se com a fartura e a ostentação, foram eles os criadores dos enormes mananciais de sangue que até hoje cortam o nosso continente.

De herança nos deixaram as doenças e a orientação racista das classes dominantes, assim como as formas de subordinação e dominação, que se originaram com a invasão hispânica. Este presente colonial, profundamente enraizado na cultura latino-americana, é o principal responsável para o caráter excludente de toda a nossa história. Desde o extermínio dos Incas até os massacres em Potosí, de Videla à Pinochet, de tupamaros à montoneros, nossa trajetória se transformou em um longo período de humilhação e resistência onde a maior e mais sincera testemunha é a devastação. Esta dívida, realmente, não é nossa, mas conosco.


Comentários

  • Nery Porto Fabres - 20/05/2013

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