Artigo

Espumantes no 30º andar

15 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Ya no son los españoles los que les hacen llorar, hoy son los propios chilenos, los que les quitan su pan (Arauco tiene una pena - Violeta Parra)

No último final de semana fui a Itajaí e Blumenau, em Santa Catarina, para lançar o meu livro Não vá ao supermercado nos domingos a convite da editora Traços & Capturas. Dois eventos muito legais: 3º Festival Literário de Itajaí e IX Semana Acadêmica de Artes da Universidade Regional de Blumenau (Furb). Foram dois momentos de reencontros e de matar saudades. Entre 1995 e 1999 trabalhei no curso de Teatro da Furb e dirigi o Phoenix, grupo de teatro da universidade. A amizade construída naqueles anos ainda é intensa e muito linda. Gika, que foi minha aluna e meu alter ego no Phoenix, é uma grande atriz, pianista, acordeonista e cantora. Ela vem participando das gravações de meu próximo CD e é a responsável pela produção e divulgação do livro.

Quando a gente se encontra, é sempre uma festa e muitas recordações. Mas nem tudo foi de encher os olhos e o coração. Na viagem a Itajaí, Fabi e eu cruzamos por Camboriú, cidade que nunca entendi os rumos traçados. Torres e arranha-céus aos montes, competindo entre si como se estivessem em um concurso de adolescentes que precisam provar uns aos outros o quanto são machos. Agulhas enfiadas nas nuvens obstruindo brisas, o voo dos pássaros, cortando horizontes e enfeando as paisagens. Bem coisa de impotente enricado, suspeito: para alcançar uma vista privilegiada de um canto do mar, lá do 30º andar, destrói todas as coisas belas de todos os cantos do entorno. Há gente trabalhadora que, embora nunca vá habitar qualquer dos apartamentos que tocam o céu, a não ser como serviçal, acha lindo e fica admirando, cá debaixo, a riqueza ostensiva de lá dos altos.

Camboriú, com seus majestosos edifícios feios e desnecessários, pode ser uma das imagens que explica o nosso país. A plutocracia brasileira, que nunca deixou o poder, mas tolerou ao longo de pouco mais de 14 anos que os pobres pudessem respirar e ter melhores condições de vida, decidiu por acabar com a comunhão parcial de bens e tomou tudo para si. Primeiramente, através de um golpe e, depois, colocando uma marionete bonitona, descomedida e chinelona no poder. Sem discussão, apenas com a proliferação de notícias caluniosas e as bênçãos evangélicas. Um currículo medíocre ao gosto dos consumidores de miojo.

Arranha-céus para o embasbacamento dos tolos, destruição de tudo o que é belo ou poderia vir a ser. Mineradoras conhecidas e clandestinas contam com o apoio do governo atual, assim como as queimadas, a destruição de florestas e o assassinato de indígenas. Milícias legalizadas. Os pacotes econômicos penalizam os cá debaixo, entorpecidos com a altura do edifício que erguem, mas onde jamais irão morar. Já são 13,5 milhões os miseráveis, 50% a mais sobre os nove milhões de quatro anos antes.

Na Bolívia acontece algo parecido. Os ricos decidiram fomentar a pobreza e a injustiça. Em 2000, tentaram privatizar a água, dando de bandeja para a empresa Aguas del Tunari, filial da estadunidense Bechtel. Houve uma revolta popular. Lideranças foram presas e estações de rádio foram fechadas pelo presidente Hugo Banzer, representante da plutocracia boliviana. No Chile, jovens se revoltam contra a enorme desigualdade social em um país de riqueza concentrada nas mãos do 30º andar. Como na canção de Violeta Parra, não são mais os espanhóis, portugueses ou estadunidenses que ameaçam a vida melhor para todos, mas as plutocracias brasileira, boliviana e chilena. Insaciáveis, também querem destruir o Uruguai. Meus amigos de Blumenau e Itajaí estão apreensivos. A plutocracia abre espumantes no 30º andar.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados