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Entraves ao nosso desenvolvimento de base local

14 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marcelo Dutra da Silva, ecólogo
dutradasilva@terra.com.br

Quando pensamos sobre o que pode ter dado de tão errado para ter nos atrasado tanto, a ponto de dar a sensação de que paramos no tempo, a primeira coisa que lembramos é de que já fomos uma cidade próspera, que cresceu ao aproveitar as oportunidades, em diferentes momentos da história. Porém, faz tempo que não é mais assim e seguimos nos lamentando pelas indústrias que fecharam e empregos que foram embora há décadas. Alguns até tentam justificar nosso marasmo econômico nisso, mas talvez não seja tão simples assim.

Precisamos considerar os fatos dentro de contexto histórico, que naquele momento não nos favoreceu e perdemos. Mas é como nos comportamos a partir dele que realmente importa. E este é o ponto! Não aprendemos a nos levantar e insistimos em retomar a Pelotas do passado. O contexto, agora, é outro e outros elementos devem ser considerados na receita da retomada ao desenvolvimento. O primeiro passo é reconhecer que não somos uma ilha e que o nosso desenvolvimento depende do bem-estar econômico e prosperidade de toda região. Se os nossos vizinhos ganham, nós ganhamos também. E na sequência devemos apreciar nossas questões internas.

Ficamos muito tempo sem dar a devida importância e atenção aos problemas que nos cercam. Ficamos presos a um loop de tentativas e esperanças de que a salvação viria de algum lugar e com o tempo o que já era ruim, ficou pior e ainda mais difícil. Não foi só capacidade econômica que perdemos. A negligência doméstica de sucessivos governos, que pouco fizeram pelo saneamento básico, planejamento urbano e conservação da natureza nos tirou qualidade de vida. Mergulhamos tão fundo que não conseguimos ver luz sobre nossas cabeças, mas ela está lá. E o retorno à superfície depende do quanto estamos dispostos a investir na integração regional e nas iniciativas de desenvolvimento de base local.

A indústria dos novos tempos é a construção civil e o comércio de bens imobiliários. Nunca se viu um crescimento tão expressivo da cidade como na última década. Construir e vender imóveis gera emprego, lucro, renda e receita... Mas este crescimento todo não se traduziu, ainda, em desenvolvimento. Apesar da expressiva participação do setor imobiliário no PIB municipal, nossa falta de entendimento quanto ao que é prioridade tem comprometido nossas oportunidades de desenvolvimento local.

O melhor exemplo é a nossa praia do Laranjal, que dispõe de riquezas subaproveitadas e/ou inviabilizadas pelo descaso público de péssimas administrações. Sem tratamento adequado do esgoto o banho na lagoa não é seguro; sem acesso adequado à comunidade da Barra, um enorme potencial gastronômico se perde; sem fiscalização e controle, as matas, as dunas e as áreas úmidas estão sendo invadidas e degradadas; sem urbanidade e preservação do verde e das margens, o nosso bairro mais bonito e atrativo está perdendo qualidade e o abandono de alguns balneários é geral.

A ausência de tratamento do esgoto tem forte efeito na saúde das pessoas, particularmente nas vilas, onde a rede coletora não chegou e os dejetos são conduzidos pela drenagem das ruas, em valetas a céu aberto. Saneamento é prevenção e evitar doenças também é uma importante iniciativa de desenvolvimento. Aliás, não se faz desenvolvimento sem sucesso econômico, atenção às pessoas e proteção do meio ambiente. Na verdade, enquanto não vencermos essa nebulosa de percepções equivocadas de que tudo se resume ao dinheiro, esquecendo de que ele precisa chegar aonde se faz mais necessário, vamos continuar patinando, sem sair do mesmo lugar. Pelotas pode fazer muito melhor, mas tem que mudar.


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