Artigo

Ensaio sobre o Multiverso

23 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet , advogado

Não há prova da existência de universos paralelos e nem de ramificações que levam os seres humanos a uma convivência consigo, mesmo sem nunca haver encontrado o seu replicante, a sua segunda versão e daí por diante. O conceito de multiverso tem sido cada vez uma exploração coloquial do que uma teoria oca. Somos culpados _ e depois explicarei o porquê do uso deste termo - pela página seguinte a ser escrita no livro que compõe a nossa história de vivência, mas não obrigatoriamente de uma vida inteira, pois ela pode ser exposta sob diversas perspectivas, se intuirmos que coexistimos num cosmo de multiversos, cujo pecado original pelos eventos cotidianos pode ser perfeitamente recorrível se enxergarmos nossos semblantes ante um espelho estilhaçado. Neste há uma estratificação multifacetada de nossa própria identidade. Não há páginas em branco no passado, é impossível rasgá-las, nosso dever é seguir em frente.

Quando mais jovens temos pressa, muita afobação, contudo perdemos de cultivar a necessidade da reflexão, de parar para respirar e observar o entorno.

O dia a dia, não obstante, deve ser administrado e cabe ao ser humano em seu grau mais estrito de intimidade definir qual a orientação a ser adotada. Terrence Malick, em "A Árvore da Vida" _ filme considerado por diversos críticos como o melhor dos anos 2000, até agora, e neste universo, claro -, sugere que há apenas dois caminhos, o "da natureza e o da graça". Este é o único a ser escolhido, porquanto é permite o perdão que consente com a cicatrização das feridas e que consente à espécie humana sair em busca da redenção, pois como disse no primeiro parágrafo, de nada adianta rasurar as páginas que já estão escritas, pois o passado já está materializado, é uma sentença irrecorrível, fez coisa julgada.

As razões das desventuras, independentemente das raízes, são tomos que estarão em relevo nas laudas a serem anotadas. É imprescindível conferir a absolvição a quem nos ofendeu, ao próprio teor da oração ao Pai Nosso.

Para se manter no caminho da graça, é fundamental manter conversas com si, a fim de chegar à conclusão de que a forma mais humana de se viver é a de se acreditar na possibilidade de que os erros não podem ser desfeitos, mas as mágoas devem ser minoradas e que o melhor caminho para a reconciliação é o da graça.

Só conhece o perdão quem o pratica, igualmente que a redenção só é estampada a quem se dispõe a admitir o preço imposto pelo arrependimento; não vejo como necessária a diagramação de uma conotação de corruptos como vira-latas, tal como ora foi erroneamente à opinião de Nelson Rodrigues, que afiançava que apenas sofria do complexo de "viralatismo" aquele que assim se via diante do outro. A prática do perdão e da redenção é, em último grau, um dogma a ser seguido por todo cristão e também pelos não-cristãos, haja vista que não significa que um dogma esteja impresso nas Escrituras que ela não deva ser seguido por todos aqueles que realizam juízos morais adequados sobre o que é correto.

Neste estrato do universo em que escrevo este texto, vejo que a possibilidade de sermos privados do cheiro do café ou do vento que sopra quando primavera insurge como a boa nova do mês de Janeiro, neste admirável mundo caótico que nos foi presenteado por 2020, é tão real quanto os cacos que caem em estilhas outrora formavam xícara, mas que agora, por um ato falho ou intencional, tanto faz, está caída em restos no chão do café onde finalizo este escrito.


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