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Emil Cioran: música e mística

29 de Outubro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão

Considerado pelo poeta Saint-John Perse como o prosador mais importante da língua francesa desde Paul Valéry, o filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) foi autor de dez obras em francês e cinco em língua romena, nas quais reflexões filosóficas são apresentadas por meio do paradoxo, da autoironia e do pensamento fragmentário e assistemático, influenciado que foi por ensaístas e aforistas como Montaigne e La Rochefoucauld. Mesclando um irreverente ceticismo com um profundo pessimismo, não desprezou, por outro lado, o estudo das várias religiões e da mística, cujos poderes sobre a imaginação humana muito o impressionaram. A arte e, sobretudo, a música, igualmente foram assuntos recorrentes em suas reflexões, a ponto mesmo de fazer da última um objeto central da investigação filosófica, filiando-se, assim, à tradição inaugurada por Schopenhauer e prosseguida por Wagner e Nietzsche.

De fato, ao invés de seu caráter cético haver turvado completamente sua relação com a literatura mística, foi precisamente a oposição entre misticismo e ceticismo aquilo que conduziu o filósofo a perceber na música a fonte para a dissolução desta oposição, na medida em que a música seria capaz de superar o racionalismo e as criações conceituais, fazendo o ser humano alcançar experiências que a mera razão não permitiria, e que a pura mística, por outro lado, também não poderia abarcar por completo, porque ela levaria em conta a possibilidade de um mundo imaterial, enquanto, para Cioran, a música continuaria sendo algo material (ondas sonoras), e que justamente por ser material e, ao mesmo tempo, por proporcionar a impressão de imaterial, suprimiria então tal dualidade. O fato da música ir além dos conceitos foi também aquilo que levou-o a escrever que "sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido o paraíso da evidência inexprimível, uma epidemia de êxtases" (Silogismos da amargura).

O êxtase musical, com efeito, foi compreendido pelo filósofo como uma via não religiosa do êxtase místico, e por isso o valor que antes era, historicamente, colocado sobre o homem místico, recairia também, de alguma forma, agora sobre o músico: "a mística é uma irrupção do absoluto na história. Ela é, assim como a música, o nimbo de toda cultura, sua justificação última"

(Lágrimas e santos). E nessa medida, enquanto "absoluto na história", o êxtase místico revelaria por um instante a constituição unitária e originária das coisas, à qual a música também teria acesso, na medida em que ela traria uma experiência onde a temporalidade permaneceria diversa da temporalidade normal da vida cotidiana.

Por fim, Cioran relacionou a música com a superação do sofrimento, além de escrever também suas observações sobre determinados compositores, sobretudo acerca de Bach, seu preferido. No primeiro caso, escreveu, por exemplo, que "a música é o refúgio das almas feridas pela felicidade" (Silogismos da amargura), e que "quando se sofre de viver, a necessidade de um mundo novo se impõe, um mundo diferente daquele no qual se vive habitualmente, para evitar se perder em um interior desabitado. E esse mundo apenas a música o propõe" (Le Livre des Leurres). No segundo caso, observou, por exemplo, que "Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou que nela penetrasse a cólera" (Silogismos da amargura); e, enfim, que "sem Bach, a teologia seria desprovida de objeto, A Criação, fictícia, o nada, peremptório" (Silogismos da amargura).


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