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E quando a inspiração some? - Café Literário

11 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Todos os cronistas consagrados que já li abordaram esse tema: a inspiração (ou a falta dela) para escrever um texto. Caio Fernando Abreu, Luis Fernando Verissimo, Charles Bukowski, Martha Medeiros, David Coimbra, Mário Prata, Juremir Machado da Silva, Moacyr Scliar e tantos outros que escrevem ou escreveram colunas para veículos de imprensa com regularidade, frequentemente sofrem ou sofriam com isso. Há semanas em que os temas brotam, as palavras aparecem como que por milagre, o cérebro borbulha de ideias e o colunista escreve com a mesma gana com que devora um saboroso xis picanha. E há outras em que o compromisso de escrever o texto vai sendo adiado até que chega o deadline, você senta na frente do computador e pensa: sobre o que escrever? Você abre sites, lê notícias, vai até a sacada e fica olhando para a rua, conversa com o gato, com o cachorro, observa a esposa ou filhos, liga a TV, passa por todos os canais, para na frente das estantes cheias de livros para tentar sugar a energia de todos aqueles autores e nada. É uma brochada literária. Desnecessário dizer que nessa semana tive uma.

Não vou mentir e dizer que essa é a primeira vez que isso me acontece. Já escrevi colunas para outros veículos de outras cidades e volta e meia a inspiração não vem e a falta dela acaba sendo o objeto do texto. No entanto, como esse é um assunto batido, prometo que será a primeira e última vez que abordarei a temática nesse espaço. Provavelmente é culpa da Covid, afinal, está saindo de moda colocar a culpa de todos os reveses do universo no PT.

Com as pessoas recolhidas e a quarentena instalada, o cronista perde a sua matéria prima: os seres humanos. A humanidade, as pessoas, a imperfeição desse bípede complexo e diverso é a principal fonte de inspiração de qualquer escritor. Os amores mal resolvidos, as paixões, a amizade, a traição, o conflito, a tristeza, os diálogos, os sentimentos, a morte e a vida humana são a engrenagem cerebral para a criatividade do escritor. Sem contato humano, não há literatura. Ou há uma literatura excessivamente erudita e monótona. Nesses momentos admiro Marcel Proust, que nos últimos 15 anos de sua vida se isolou do resto do mundo para escrever. Desse afastamento social nasceu "Em busca do tempo perdido". Não serei hipócrita de dizer que li todos os volumes na íntegra. Comecei o primeiro nos tempos da faculdade e desisti. Anos depois, tentei o segundo. Era um santo remédio para as noites de insônia. Não me interpretem mal, há frases geniais que podem ser garimpadas em meio às centenas de páginas e, acredito em Houellebecq e outros escritores da qual eu gosto que dizem que essa é uma obra perfeita. Apenas acho que não evoluí ainda ao ponto de conseguir degustar os longos parágrafos arquitetonicamente pensados e escritos por Proust nos seus últimos anos. Talvez quando estiver nos meus últimos anos eu tenha maturidade intelectual para isso. Até lá, vou me contentando e me alimentando da comédia humana e de escritores mais mundanos, como os próprios romancistas admiradores de Proust. Aliás, eis o enigma: como você não consegue se apaixonar pela obra do autor que mais inspirou autores de livros que você adora? Eis a questão. Gosto do estilo ensaísta de alguns franceses, mas como estou nomeio de uma broxada literária, vou deixar para falar sobre isso em outra oportunidade.

Se alguém tem alguma sugestão sobre onde consigo um Viagra literário, por favor, avise-me, pois ainda teremos uma longa estrada até o fim da pandemia. Um bom final de semana a todos.


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