Artigo

E o tempo passa ou burguesia do tempo

Vivemos, simplesmente vivemos, com a ideia vaga de que nada termina e que, ao final, realizaremos nossos sonhos; depois, vem a terceira fase, quando voltamos a pensar no tempo

23 de Maio de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: José Rodrigues Gomes Neto, advogado

(Escrevi esta crônica há bastante tempo, antes mesmo de que o Veríssimo tivesse abordado o tema em um texto que o Amexa(sic) me enviou, por certo em razão de nossas conversas “filosóficas”...)

Seria um sacrilégio eu dizer que o Veríssimo me roubou uma crônica (até porque ela foi publicada antes da minha), apenas porque ele escreveu sobre uma questão que tem sido objeto de minha atenção, desde sempre.

Não, claro que não.

Também não o estou copiando.

Faz anos que este assunto me persegue. Há muito que digo aos meus amigos que o transcurso da vida - nada mais do que pelo andar do tempo - acaba sendo angustiante.

E por quê?

Pelo simplíssimo motivo de que ao longo desta corrida, na medida em que os anos passem, vamos deixando ficar, pelo caminho, inúmeras oportunidades, as quais, nas mais das vezes, nem chegamos a perceber.

Ao nascer, nossas possibilidades são infinitas. Poderemos vir a ser tudo: campeão olímpico, talvez um notável cientista, quem sabe um extraordinário homem de letras ou um inventor, enfim, até mesmo papa.

Mas o curioso é que, em nossa juventude, pensamos no tempo, que nos parece ser infinito e tempos a errada sensação de que ele não está correndo. Quantas vezes imaginamos fazer algo e logo adiante adiamos a iniciativa: não, dizemos para nós mesmos, agora não, o tempo não me faltará, vou pensar nisto mais tarde.

Tal condição nos acompanha até o final da adolescência, e ainda um pouco mais.

Nessa época, achamos que temos tempo para tudo, quer dizer, estão abertos, a nossa frente, uma infinidade de caminhos.

Daí passamos - anotem e não esqueçam - para um segundo estágio. É quando concluímos os estudos e entramos no mercado de trabalho e constituímos família.

Observem, aqueles que estão vivenciando esta fase da vida: não pensamos no tempo, ele não nos preocupa.

Vivemos, simplesmente vivemos, envolvidos por inúmeras circunstâncias, cheios de problemas, de planos, com a ideia vaga de que nada termina, tudo é eterno e que, ao final, realizaremos nossos sonhos.

A esse enganoso momento da vida Gilberto Freire chamou de “burguesia do tempo”.

Tive a ventura de ouvi-lo discorrer sobre isso.

Bem, e depois?

Depois, vem a terceira fase, quando voltamos a pensar no tempo. Agora, fazemos um balanço e percebemos que não há quase caminhos a serem trilhados, as possibilidades minguaram, o tempo ficou curto, já não dá para quase mais nada.

Na verdade, não estou plagiando o Veríssimo, ele somente despertou, em mim, a vontade de trazer à luz este assunto - que sempre rondou meus pensamentos e cuja crônica estava guardada em uma gaveta - quando declarou que, por causa da idade, não poderia mais ser papa.


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