Opinião

É lamentável ver parte da sociedade odiar as mulheres

02 de Julho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Daniela Agendes
Jornalista e mestra em Letras daniela.agendes@gmail.com

Não preciso ter passado por um episódio de assédio sexual e moral no trabalho para me sensibilizar com o sofrimento das servidoras da Caixa que acusam o então presidente do banco, Pedro Guimarães, das mais escabrosas e constrangedoras importunações. Este é o primeiro caso público de assédio sexual envolvendo um alto funcionário do governo Bolsonaro, alguém que chegou a disputar a vaga de vice na futura chapa – fato que não me surpreende, dado o histórico do atual presidente de discriminação direcionada às mulheres.

Falo por mim, mas sinto poder afirmar que muitas de nós temos um dispositivo interno de empatia umas para com as outras. Irmãs, primas, amigas ou meras desconhecidas – a gente se olha e sabe ou imagina a dor que a outra sente quando está acuada numa situação na qual um homem se prevalece de sua posição de poder.

São diversos os tipos de violência que as mulheres vivenciam, seja na faculdade, no ônibus, ou mesmo em casa, pelo simples fato de serem mulheres. Ela tem nome: a violência de gênero se dá pela condição de ser mulher, independentemente de raça, classe ou qualquer outro fator, embora os níveis de suscetibilidade de mulheres em diversas condições sejam evidentemente diferentes. Essa violência é produto de um sistema sócio-histórico que subordina o sexo feminino: o sistema patriarcal que, presente há cinco mil anos, se confunde com a história da civilização. Dado como natural, estrutura a sociedade em partes opostas – homens e mulheres, com papéis sociais e lugares claramente definidos.

A partir desse contexto, a desigualdade de gênero se materializa em atos violentos e discursos de ódio. É lamentável ver parte da sociedade escolher a misoginia (ódio às mulheres), seja ao massacrar publicamente uma jovem mulher que entregou para adoção um filho gerado após estupro, seja ao proferir sentença que dificultou o acesso de uma criança de 11 anos, também estuprada, ao direito previsto por lei de interromper a gravidez.

As mulheres, mesmo na posição de vítimas, não são seres impotentes. Ainda que, na maioria dos casos de violência, estejam em circunstância de subordinação (no trabalho) ou de dependência financeira e emocional (dentro de casa), têm caminhos pela lei para buscarem proteção e reparação. Porém, tendo como exemplo a violência doméstica, muitas não conseguem perceber as relações abusivas em que estão profundamente mergulhadas. Outras tomam consciência, mas não encontram coragem ou meios concretos para sair dali. Algumas avisam as autoridades das ameaças à própria vida, mas acabam violentadas fisicamente ou mesmo mortas antes de os agressores serem afastados por medidas protetivas de saída do lar.

Precisamos estar conscientes dos obstáculos conferidos por um sistema que tenta (e frequentemente consegue) oprimir nossa voz e ação. Da importância da persistência na luta feminista, que desnaturaliza e questiona a desigualdade e busca oportunidades e direitos iguais aos dos homens. O apoio mútuo entre mulheres é fundamental, e pode acontecer nas conversas, nas postagens nas mídias sociais, no gesto de acolhimento àquelas que, em situação vulnerável, pedem socorro nas entrelinhas de um desabafo e de um pedido de abraço.


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