Opinião

Do sacro Machado ao pau-brasil

02 de Julho de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sérgio Cruz Lima, colaborador

Corria o ano 366 da deglutição do bispo Sardinha saboreado pelos caetés... e os canibais estavam de regresso. Queriam o fígado de Peri. Queriam papar o Guarani – em prosa e verso. Ideavam trancafiar Castro Alves no navio negreiro. Almejavam cruciar Vitor Meireles. Sonhavam esquartejar Pedro Américo como este o fizera com Tiradentes. E queriam aporrinhar a burguesia. Ela amolentara sobre as sacas de café e rolos de dinheiro, como gatos de armazém. Urgia despertá-la. De primazia com escarcéu. Nem que fosse o averno de suas próprias vaias, “rinchos e miaus”.

E por isso o vate vociferava: “Eu insulto o burguês! / O burguês-níquel / O burguês-burguês! / A digestão benfeita de São Paulo! / O homem-curva! / O homem-nádegas! / Come-te a ti mesmo / Oh!, gelatina de plasma! / Oh!, purê de batatas morais / Oh!, cabelos nas ventas / Oh!, carecas! / Oh!, girolas / Ódio aos temperamentos regulares / Ódio aos relógios musculares! / Morte e infâmia / Ódio à soma! / Ódio aos secos e molhados! / Ódio e insulto! / Ódio e raiva! / Ódio e mais ódio! / Morte ao burguês de giolhos / Ódio, fundamento, sem perdão / Fora! Fu! Fora o bom burguês!…”

Fora, sim. A plateia, enfim, ecoava o poeta. O bardo tímido e pacato que desferia aquele munhecaço no rosto do público casto. E o público pagara 20 mil-réis para ouvir aqueles poemas sem pé nem cabeça, escutar aquelas partituras dissonantes, ver aquelas telas borradas. Era 13 de fevereiro de 1922. Local: Teatro Municipal de São Paulo. Poeta: Um tal Mário de Andrade, acolitado pela música de Villa-Lobos e pelas pinturas de Anita Malfatti. Evento: Semana de Arte Moderna.

O Brasil jamais seria o mesmo após aqueles três dias de delíquio e matracas no teatro paulista. À sorrelfa, a Semana de Arte Moderna, que iniciara na segunda-feira, 13 de fevereiro, e se encerraria no dia 17, apresentou à Terra da Santa Cruz seus “neo tupis”: os poetas Mário e Oswald de Andrade, a pintora Anita Malfatti, o compositor Villa-Lobos. Logo, outros os seguiriam. Todos dispostos a comer o bispo e a deixar a pauliceia desvairada. E pior: tinham o apoio de burgueses, como Paulo Prado, que bancara a opípara festa, e o diplomata Graça Aranha, que fizera a conferência inicial daquele autêntico bacanal cultural.

A Semana seria apenas o prelúdio. A seguir, bateram o martelo o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” e o “Manifesto Antropofágico”. De repica-ponto, o Brasil dos efebos bardos queria ouvir novas rimas e novos sons. Queria acabar com o padre Anchieta. Olvidar o padre Vieira. Pôr no chinelo José de Alencar.
Deslembrar Carlos Gomes. Anelava redescobrir Pindorama na selva de asfalto das cidades. Queria que o novo mundo fosse admirável e industrial. Queria ser bugre e negro. Queria foiçar o “passadismo”. Queria a vanguarda. E a queria já! E, para tal – sem quimbembes! – urgia borrar a velha pintura, aluir a velha música, esbrasear os velhos livros e pisotear a “República das Letras”. Se a literatura era o “sorriso da sociedade”, os novos canibais queriam transmutá-la num esgar de escárnio. Queriam a revolução caraíba e queriam, é óbvio, “épater le bourgeois”. Conseguiram tudo! Mas pagaram caro pela conquista. E à vista. A Semana de Arte Moderna rompeu com o pretérito e apresentou o Brasil das letras ao Brasil das calçadas. Plantou o pau-brasil – e só poupou o sacro Machado.


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