Opinião

Do alto da roda-gigante

21 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Daniela Agendes
Jornalista e mestra em Letras 

O parque está cheio. Estou no lugar mais alto da roda-gigante. Vejo a mãe segurar a menina pelo braço para evitar que ela saia correndo e se perca no meio da multidão. O pai do garoto acerta o tiro no alvo e eles ganham um unicórnio de pelúcia. Consigo escutar, vindo lá de longe, os gritos das pessoas que se assustam e se divertem ao mesmo tempo. Gente que chama de lazer a sensação de adrenalina ao girar alucinadamente pelo ar naquele brinquedo que não lembro o nome, ao subir e descer repentinamente na montanha-russa. Do “carro choque” (ou bate-bate?), desse sim, eu tenho saudade. Nos anos 90, já mostrava interesse pelas tais “coisas de menino” – existe algo assim? Claro que não. Ainda bem que a mãe deixava eu misturar carrinhos com bonecas pelo quarto.

Não sei como vim parar aqui em cima, se tenho medo de altura. Alguém me colocou no banco dessa roda-gigante, pagou o tíquete, porque não é possível, como consegui chegar aqui? Vi subir gente com mais medo do que eu, gente que não pagou o ingresso; outros já vieram tantas vezes que já nem acham graça, e desdenham: nem sobe, hoje está nublado, a vista não vai valer a pena. Eu subo, sim, quero rodar nesta gigante-girante. Um olhar treinado percebe a faixa de céu azul que timidamente se revela.

Eles não sabem como foi chegar neste ponto. Teve ciclone, onda que encharcou e derrubou tudo, inundou a sala; havia água e sujeira para todo lado. Coloquei meus óculos de brincar de nadar de quando era criança. Na época, às vezes mergulhava na piscina transparente, mas estava mesmo habituada ao chocolatão do mar do Cassino; chegava até a enxergar concha no fundo. Um olhar infantil distingue, mesmo na turvação, o detalhe que importa.

Ninguém avisa que nessas águas da vida adulta nem sempre adianta usar boia – e os óculos de natação não nos servem mais. A visão engana, e quem pensa que sabe muito logo descobre que não controla coisa alguma. Tentar dominar as variáveis; examinar os cenários; evitar o que causa medo. Tão típico de adultos…Se o bebê compreendesse que aprender a caminhar o levaria a cair várias vezes, ele ainda assim seguiria em frente. Isso é instinto, isso é viver. E se a criança soubesse que ficaria de cotovelo ralado ao aprender a andar de patins? Brincaria de qualquer forma. Na bicicleta, nossos pais colocam rodinhas extras, e aí entendemos que alguns medos podem ser encarados com treino e cotoveleiras. Ah!, se para todo desafio houvesse tempo de praticar antes.

Quando a gente cresce, quer voltar a patinar, mas não consegue por receio de cair. É que, agora, a distância daqui ao chão parece maior do que há 25 anos – embora lá já tivesse mais de 1,70m de altura. Já havia notado que a ideia de proporção é diferente quando se é criança. O mundo aparenta ser maior, mas as distâncias parecem alcançáveis sem muito esforço. As pernas correm rápido. O chão está bem ali e pouco preocupa – ele serve de impulso para levantar. Afinal, é só fazer um curativo.

Naquelas águas turvas, sem aviso, mergulhei, mesmo assustada. O canto dos anjos conduzia pela melhor direção; os cinco sentidos (ou seriam seis?) me guiavam. Teve redemoinho, uma mão me puxou para cima, uma não, eram várias as mãos amigas que mostravam o caminho.

Lembro que nem li qual era a altura da roda-gigante na placa do parque. Quando percebi, meu olhar alcançava o sol lá no alto vencendo as nuvens antes carregadas.


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