Artigo

Dieta para fortes e destemidos

19 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Mudanças são sempre estranhas, nem sempre bem-vindas e exigem uma grande disposição da inteligência e de adaptação. Se estamos acostumados ao churrasco dos fins de semana, à macarronada e aos deliciosos pães quentinhos com manteiga de todas as manhãs, o que o nutricionista, esse filho do diabo, nos recomendará? Assustado com a enorme pança que cai sobre o nosso cinto e não nos deixa ver o bico dos sapatos, ele diz para reduzirmos drasticamente o consumo da costela gorda, caipirinha e cerveja, e eliminarmos os carboidratos e os açúcares. É um deus nos acuda!

Acostumar-se a comer feito um passarinho é para os fortes e destemidos. E ainda se obrigar a dar umas corridinhas e fazer ginástica na academia? A vida é injusta! Tudo para perder os milhões de pesos mortos que nos fazem cansar sem propósito, travam nossa locomoção, apagam nossa libido e agulham o coração. Mas há outras mudanças pavorosas que só não alcançam os defuntos, esses privilegiados. As decorrentes do avanço tecnológico, por exemplo, podem nos deixar sem pai e mãe, perdidos no meio da floresta digital. Escrevo para quem tem mais de 40 anos, obviamente, que conheceu uma boa máquina de escrever, o fax, o mimeógrafo, o projetor de diapositivos, o retroprojetor, o giz, o papel transmissor e as três vias carimbadas.

O diploma do curso de datilografia foi aposentado sem indenização por tempo de utilidade. A UFPel, por exemplo, vem usando há dois anos o SEI, Sistema Eletrônico de Informações totalmente digital. Então, acabaram-se os camalhaços de folhas e carimbos, o protocolo de documentos físicos, os mil arquivos e pastas gigantes. Todavia, é possível que algum servidor tenha saudades da Amélia e fique contemplando os armários onde repousam arquivos imensos, como quem olha o retrato de um ente querido que partiu sem avisar. Uma lágrima corre na face: o que faço com o meu carimbo?

Quando as mudanças alcançam as rotinas, os modos de operação, as hierarquias e os organogramas de uma instituição, a sensação é de uma tentativa criminosa, genocídio em massa: "Por que mudar agora, se só faz 300 anos que funciona assim?". Outros gêneros de mudança também perturbam. O Impressionismo, quando surgiu na França do Século 19, sofreu todos os ataques de estranhamento e desaprovação. Que Monet, Renoir, Degas, Pissarro e Cézanne fossem catar coquinhos e largassem da pintura. Aqui no Brasil, a Bossa Nova nasceu no final dos anos 50 do século passado (é preciso alertar os adolescentes de que o mundo não surgiu há 15 anos), mudando radicalmente o ouvido brasileiro. Teve gente que chiou: "Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim?".

Logo, a Jovem Guarda, a Tropicália, os Mutantes e Chico Buarque sacudiram novamente as estruturas monolíticas de nossas cabeças. E depois, Secos & Molhados, o Terço, o Clube da Esquina, e, nos 80, o rock brasileiro espatifando paradigmas e ressignificando a letra/poesia com Paralamas, Titãs e Legião. Tem gente que até hoje não entendeu e prefere admirar arquivos. No milênio de quase 20 anos, Anitta traz a laje para dentro de nossa casa. Pabllo Vittar tira o mofo das sepulturas. Meu filho me apresentou os dois. Custei a entender e, em um primeiro momento, quase os mandei catar coquinhos. Mas nada como o oxigênio para renovar as ideias, a percepção e ampliar nossa compreensão das coisas. Mudanças. Meu filho curte Anitta e Pabllo, mas também Chico, Rita Lee, Legião, Queen, Pitty, Lorde, The Beatles, Raul Seixas, Nenhum de Nós, Nino Bravo, Bebe e muita gente que não tem idade nem monumentos na cabeça. Eu ando ouvindo o Thiago Ramil, outro que rompe muros e faz a gente lembrar o velho filósofo Sócrates: eu só sei que nada sei. Como o Caetano e o meu filho, adoro a Anitta. E agora, o Thiago Ramil. Meu nutricionista é dos bons!

 

 

 


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