Artigo

(Des) empregos e o novo mundo do trabalho

25 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Lia Joan Nelson Pachalski, professora

As notícias sobre desemprego são sempre alarmantes e uma das últimas que li num jornal de domingo foi que, em consequência desse fato, aumentou o número de entregadores de comida. Ou seja, a pessoa ficou desempregada e agora uma alternativa é fazer entregas, de bicicleta preferencialmente, em função da popularidade dos aplicativos na área gastronômica, que gera uma grande demanda por entregas em domicílio.

Seria preciso analisar essa situação com mais profundidade, pois a meu ver, vem sendo tratada de forma muito simplória pela mídia ultimamente.

O que podemos interpretar? Que o governo não está fazendo sua parte, que há uma crise econômica, que as pessoas estão sem opção de trabalho e consequentemente uma convulsão social se aproxima, com esse cenário?

Acho que falta uma peça nesse tabuleiro. O que tenho lido muito pouco e gostaria de ler mais, é sobre a mudança estrutural e sociológica que vem acontecendo no âmbito do mundo do trabalho. Ao "povo", será que interessa somente ler sobre os números? A quarta revolução industrial (termo cunhado na Alemanha e já bem conhecido) traz consigo uma série de consequências e infelizmente, chega de roldão, atacando os mais vulneráveis da pirâmide. Se a revolução industrial em si foi um marco histórico mundial, modificando toda a estrutura de trabalho e produção consolidada por séculos, podemos imaginar o que está por vir (ou já chegou e esqueceram de nos avisar).

Os entregadores de comida então não perderam o emprego só porque estamos em uma crise econômica. Esta crise também é sociológica, quase existencial. Perderam o emprego porque exerciam atividades que já estão sendo realizadas por programas, por aplicativos, pelas possibilidades que a inteligência artificial viabiliza (IA). Quer dizer, além de perder o sustento do mês, perdem a identidade. Se eu passava o dia fazendo triagem de papéis e organizando arquivos, e fiz isso por anos, hoje o computador já faz meu trabalho. Pumba, de repente estou desempregado e a culpa é de quem? E isso não ocorre somente para aqueles que não tiveram melhores oportunidades na vida. Serve também para os graduados e pós-graduados que ainda exercem funções (repetitivas) possíveis de serem transformadas em software logo ali na esquina, mas que sofrerão as consequências por último.

Enquanto a mídia alardeia para o povo que o governo precisa criar empregos, o tempo passa e essa revolução vai tomando conta. Não há governo, empresa, indústria ou partido que possa criar empregos da mesma forma como se fazia há dez ou 30 anos. Urgem ações transformadoras no âmbito acadêmico, claro, mas também em outras frentes. Precisamos conviver com esse novo cenário que vem cheio de desafios.

A indústria já definiu seus novos padrões e trabalha há um bom tempo para preparar seus profissionais - precisam de programadores, analistas, jovens que inovem na área da IA, mentes criativas e com espírito de liderança e trabalho em equipe.

Mas e nas outras áreas da vida? O que vai se precisar, o que vamos fazer para nos prepararmos? O comércio (eletrônico) formal e informal, as salas de aula, as novas configurações e modelos sustentáveis de transporte e moradia, o sistema de segurança... enfim... há um mundo de possibilidades pela frente para sermos criativos e nos repensarmos. Você já pensou se vale a pena investir suas economias em um carrão a gasolina? Na Europa, logo mais, nem carro a gasolina será permitido nas ruas. Você sabe que as câmeras e os dispositivos eletrônicos com a internet irão substituir os porteiros, seguranças, cobradores de ônibus, atendentes... (sim, isso é dolorido) e o que está fazendo para ajudar a diminuir essa dor?

O Brasil colônia ainda está em uma fase política de dicotomias, sempre na busca por um modelo de democracia que atenda aos anseios desse grande país, mas que em nada ou quase nada se assemelha a outros. Perdemos tempo nas redes sociais, em políticas retrógradas que não agregam e procuram agarrar-se a sistemas de trabalho que já não existem mais, por medo e/ou acomodação, enquanto há tanto para se pensar e fazer. Não vejo com maus olhos as novas ocupações, mas precisamos preparar a base da pirâmide que sustenta a engrenagem (sim, não sejamos hipócritas), caso contrário, continuaremos numa espiral descendente.

Quebrar paradigmas nunca foi tão urgente, mas isso se faz com integração de conhecimentos e valorização de profissionais que possam trazer contribuições sólidas para a construção desse novo mundo profissional e social. Dê um tempo para as redes sociais e seus memes, para as manchetes dos jornais, e faça essa reflexão.


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