Ponto de Vista

Democracia em ruínas

A culpa não é apenas desse ou daquele político, desse ou daquele partido. A culpa é, sobretudo, do sistema político que não funciona mais

24 de Junho de 2013 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Fábio Régio Bento, sociólogo

Me gustan los estudiantes, que marchan sobre la ruina. Con las banderas en alto, va toda la estudiantina. 
(Violeta Parra)

Pensei que tivessem morrido os estudantes que marcham sobre ruínas. Via somente estudantes querendo tchu ou tcha, estudantes entorpecidos pelo consumo, socados em lanchonetes nórdicas. Felizmente, enganei-me. Eles estão de volta! Marchamos sobre as ruínas da ditadura, lutando por democracia. Agora, a marcha é sobre as ruínas de uma democracia falida.

Democracia em ruínas... A culpa não é apenas desse ou daquele político, desse ou daquele partido. A culpa é, sobretudo, do sistema político que não funciona mais. É como um carro velho, que ainda anda, mas engasga sempre. Não adianta pensar que a solução seja colocar esse ou aquele ministro togado no Executivo, como se fosse um messias, hipernutrindo um poder que não sofre de desnutrição. Ilusão! Democracia em ruínas... A tripartição dos poderes não funciona mais. A representação popular via partidos políticos também engasgou, perdeu a velocidade necessária à complexidade de nossa sociedade. Em vez de povo no poder por meio de partidos, temos partidos no poder por meio do povo e, muitas vezes, contra o povo. Os grandes meios de (tele)comunicação, quarto poder, que deveriam ser democráticos, são o esgoto do esgoto da ruína dos quatro poderes.

Quatro poderes divorciados do povo. Derrubaram a escada e abandonaram o povo. O Judiciário também. Diz que segue “a lei” e não o “clamor dessa turba chamada opinião pública”. Esnoba o povo com a prática da impunidade e, sobretudo, da indiferença em relação ao clamor popular, como se o Poder Judiciário emanasse dos concursos e não do povo.

A oposição diz que a culpa é do governo, mas isso é somente simplificação oportunista, eleitoreira. Não sabemos como será a nova democracia. Nem sabemos quando e como trocaremos essa falida que temos por aquela que ainda não temos. Ela está nos livros que ainda não foram escritos, ali no futuro. Não está mais em Montesquieu, que já fez a sua parte. Enquanto, marchando, não descobrimos o substituto para o carro que engasgou, temos ao menos a certeza de que a razão política de tudo continua sendo a mesma, válida razão: soberania popular! Não há crise no “todo poder emana do povo” e sim nas formas de sua realização. A alma da democracia, popular, não morreu. O problema é que ela ficou prisioneira desse zumbi, falido zumbi de quatro poderes em ruínas, divorciados da soberania popular, sobre os quais marchamos hoje, liderados pela esperança ativa, militante dos jovens, sangue novo, parte nobre dessa nossa sociedade...


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