Artigo

De quarentena em quarentena

25 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental
prosasousa@gmail.com

Mesmo a olho desarmado se pode ver que somos dados a quarentenas. A primeira, decisiva e fundacional - lockdown absoluto - prolonga-se por quarenta semanas, quando permanecemos recolhidos ao claustro materno, com apenas contatos sonoros, vindos do mundo, que são atenuados pelas águas que nos banham. Nem pensamos em sair dali, empenhados que estamos em construir-nos, tijolo a tijolo, célula a célula, é a obra mais rápida do mundo e a mais impressionante para os arquitetos: o resultado final não será uma casa, como chegaram a pensar, e sim uma pessoa completa que, como as casas, precisam de cuidados e, também como aquelas, falam, respondem, preveem, têm tipo de rede elétrica, modelos de segurança e defesa, sistemas de esgoto e renovação de ar.

Essa quarentena raiz exige ainda a organização pormenorizada de como sair dela. Ninguém termina quarentena igual que entrou, avisam-nos os que nos antecederam. Mas, sempre comparece a turma dos céticos, que asseveram existir, bem além de nossa miopia, mais conexões entre a vida dentro da quarentena e a vida fora dela. De modo que mais coisas serão somente prosseguimento e menos, coisas novas, para desgosto dos que sonham que, ao sair, tudo vai ser diferente. Não vai. As fundações sobre as quais se desenvolvem seres humanos são por demais sólidas para que meras quarentenas - mesmo a matricial - possam modificar.

Passada a quarentena inaugural e a saída ao mundo, o que não é fácil, outras tantas nos caberá viver. A maioria delas será fugaz, recolhimento por moléstias passageiras, pequenos adoeceres que em um, dois dias estará solucionado, momentos transitórios por simples estados de tristeza, face a perdas amorosas ou financeiras. Estudos indicam que somente os confinamentos mais prolongados e com medidas de isolamento mais severas - que mais se assemelham à experiência original - possuem alguma chance de alcançar avanços estáveis pós-isolamento.

Mas, o ser humano é, por natureza, esperançoso. Muito tenho ouvido previsões de que sairemos melhores pessoas ao vencermos a atual Sars-cov-2, acreditam que permanecerão os sinais de solidariedade ostensiva, de preocupações perenes para com o próximo, de mais cuidados permanentes consigo mesmo. Custa-me crer. 

Procuro não chegar ao extremo hobbesiano de pensar que a vida é solitária, pobre, sórdida, bruta e curta. Não fora a afirmativa final, em que Hobbes sugere certo conteúdo de ironia, diríamos que o filósofo estava num dia carregado ao formular sua visão sobre os homens. Mesmo assim, não vejo como nos distanciarmos de um ceticismo prudente. Como negar nossa ‘insustentável leveza’, dita pelo Kundera? Por mais que queiramos permanecer leves, nosso peso de corpo e alma, se faz sentir em curto tempo, sós ou acompanhados. Assim, a quarentena de 2020 talvez nos ensine algo para comunicação à distancia, mas a essência modesta não será atingida. Antes fosse.


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