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Dar o peixe ou ensinar a pescar? A UFPel e a sociedade

09 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Francisca Ferreira Michelon, professora do Instituto de Ciências Humanas e pró-reitora de Extensão e Cultura da UFPel

O ditado Não se deve dar o peixe e sim ensinar a pescar não faz jus àquilo que a UFPel tem feito, de fato, junto à sociedade. Sem dúvida, o que estamos buscando é construir, com aqueles que nos procuram ou que procuramos, o viveiro de peixes.

Universidade e sociedade sempre estiveram próximas porque a justificativa da existência da primeira era, como ainda é, as necessidades da segunda. Portanto, mesmo que, de vez em quando, ainda se escute: "a universidade pública existe como um castelo murado", que vive de si para si, isso não corresponde à verdade, desde que esta instituição surgiu no seu formato moderno, na década de 1930, quando foi fundada a Universidade de São Paulo. A universidade é o que a sociedade, na sua complexa conjuntura, demanda. O que se sabe é que a forma da proximidade entre sociedade e universidade corresponde a determinado estado das coisas, porque as suas fluentes e fluidas mudanças vão ditando a dinâmica dessa aproximação.

Para tratar deste assunto, é suficiente e necessário olhar para a realidade a nossa volta. E nela está a UFPel. Sim, nela. Não está à parte ou à volta. O que acontece a uma, na outra se reflete. Vou ser mais específica e apresentar sob um ponto de vista o lugar onde nos encontramos. Começo falando dos 23 municípios que formam o território que corresponde à delimitação da Zona Sul do Rio Grande do Sul. Há similaridade entre esses municípios quanto ao seu desenvolvimento social, nos quais há um amplo leque de fatores que determina o nível de bem-estar das populações.

Nesse conjunto, encontramos o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano do Estado (média 0,65 segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil - Pnud) - destaca-se que o índice médio do Rio Grande do Sul é 0,757 - e, ao se analisar a renda gerada e apropriada, que implica temas de saúde e educação, a região está entre as quatro de posição mais inferior na pesquisa do Idese (Índice de Desenvolvimento Socioeconômico, 2014). Consequentemente, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) da média dos municípios da Zona Sul fica em último lugar no Estado. Esses dois índices refletem relações entre as taxas de emprego e escolaridade, a qualidade da saúde e as taxas de mortalidade. As relações estabelecidas entre tais fatores desenham o quadro de carências, deficiências e dificuldades para agir sobre os problemas em um local com baixa densidade demográfica, o cone sul.

Por outro lado, a UFPel tem registrado, no seu sistema, por exemplo, um número que avança além de 600 projetos de extensão ativos no ano em curso - que expressam sua relação mais direta com a sociedade -, dentro dos quais há mais de mil ações em desenvolvimento. Importante dizer que este número não para de crescer. De dezembro de 2018 para cá, não só o registro de projetos cadastrados aumentou, mas também as ações. São atividades coordenadas por quase 180 servidores, entre professores e técnicos que atuam com mais de cinco mil alunos, atendendo a uma vasta população da cidade, da região e do país.

A natureza desses projetos é diversificada e estão espalhados pelas 22 unidades acadêmicas da UFPel (suas faculdades, centros, institutos e escola). Portanto, todos os cursos são propositivos em responder a demandas que chegam, ou a que estão sensíveis, que são cada vez mais numerosas. Demandas chegam à UFPel de muitos modos: pela participação da Universidade nos Conselhos, por solicitações feitas diretamente pelas prefeituras e suas secretarias, por demandas das associações, dos movimentos sociais e do Fórum Social que hoje reúne muitos grupos organizados, que buscam, na universidade, uma parceria cujo interesse é o bem-estar social.

Por isso, em 2018, a gestão da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura organizou a demanda na forma do Programa de Desenvolvimento Social dos Municípios da Zona Sul do RS. Por quê? É fácil saber o potencial da UFPel quando se lembra que há um imenso número de ações de educação para a saúde que acontecem em Pelotas, desenvolvidas pela ou com a UFPel. E educar para a saúde é prevenir sofrimentos que podem ser evitados. Aliás, só a Faculdade de Medicina, que congrega os cursos de Medicina, Psicologia e Terapia Ocupacional, registrou 59 projetos em 2018. A Faculdade de Odontologia, com este único curso, atendeu a uma vasta população, de gestantes a idosos, com seus 34 projetos ativos. E, ainda, há projetos desenvolvidos no Hospital Universitário. Os cursos da Saúde se estendem por outras unidades, sempre com atuação junto à comunidade, somando, no ano que findou, mais de 160 projetos nesta área. O atendimento na área de Educação reúne 139 projetos, a maior parte deles desenvolvida junto às escolas e às instituições de ensino não formais. Acrescentam-se a esses as diferentes ações de capacitação e formação de professores direcionadas aos municípios da Zona Sul. E sem os 113 projetos na área de cultura, provavelmente Pelotas não ocuparia lugar de destaque cultural no Estado e não seria sede de eventos que ocorrem em poucas cidades. Sim, a extensão da UFPel atua em todas as áreas.

Os dados já citados falam por si, mas não dizem tudo. O que deve ser destacado é a forma como a extensão universitária se desenvolve na UFPel. Estes projetos não levam apenas o conhecimento que se produz na universidade para a realidade social, mas fazem desta a sua razão de ser. Por isso, por meio do Programa de Desenvolvimento Social, a UFPel e a Azonasul (Associação dos Municípios da Zona Sul) assinaram um Protocolo de Intenções durante a celebração dos 55 anos da Associação, em Piratini, cidade que recebeu a primeira reunião da Azonasul. O acordo foi selado por meio do Programa de Desenvolvimento Social, permitindo celebrar, com os diferentes municípios, Acordos de Cooperação que vincularão a eles projetos da UFPel em prol do desenvolvimento social.

Quem tem fome precisa do peixe, e quem passa fome precisa aprender a pescar. Só que há um modo de ir além, de transformar a realidade por força do conhecimento compartilhado, que junta, ao diagnóstico do problema, a capacidade de solucioná-lo. Não há muros se não os queremos. De fato, a extensão universitária é a dimensão social da universidade. Se a universidade deixar de existir ou abdicar, por força, desta dimensão, quem perderá é quem menos pode perder: a população da nossa cidade e da região.


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