Artigo

Cuidando de si para cuidar dos outros

04 de Dezembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Eduardo Ritter

Cerca de uma década atrás a editora Martins Fontes, de São Paulo, traduziu a transcrição de cursos que o filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984) ministrou entre os anos de 1971 até 1984 (ano de sua morte) no Collège de France, intitulados de História dos sistemas de pensamento. Durante alguns anos, debrucei-me sobre essa obra mapeando o conceito da palavra grega parresía (que resumidamente é: a fala franca, no espaço público, assumindo riscos), e que tentei trazer para o Jornalismo em minha tese de doutorado, que teve como objeto de estudo o Jornalismo Gonzo. E, enquanto mergulhava no mundo de Foucault, mais especificamente lendo o livro "O governo de si e dos outros", ministrado em 1982 e 1983, deparei-me com uma lógica grega que tanto nos ensina, quanto nos faz refletir sobre alguns conceitos básicos de se fazer política e de cuidar de si próprio e dos outros.

A lógica é simples, mas praticamente ninguém a coloca em prática contemporaneamente: para cuidar dos outros, o sujeito deve, primeiro, cuidar de si mesmo. Claro que esse pingo num oceano de ideias é apenas o recorte que trago aqui. A obra e a pesquisa de Foucault são muito mais profundas e complexas. Mas, ficando nesse mini recorte, chego a dois exemplos cotidianos contemporâneos: um no campo macro (a política) e outro no campo micro (saúde e finanças).

Primeiro pensemos no campo macrossocial. É possível delegar a alguém a chefia de uma nação (país, estado ou município) nas mãos de quem não tem saúde, estudo, educação, sanidade, inteligência ou equilíbrio emocional para cuidar da vida de milhares ou milhões? É possível alguém que não consegue se controlar diante de uma pergunta incômoda da imprensa, ou diante de um xingamento de um eleitor desconhecido, ter perspicácia para comandar uma nação? Não. Um sujeito assim, até pode chegar lá com bons marqueteiros e fábricas de fake news, pode até se reeleger trezentas vezes, mas não vai obter sucesso. Meu gatinho Zoreia se elegeria com as estratégias que lavam o cérebro de meio país. Pois tanto o líder eleito, quanto o povo que o colocou lá, estando despreparados, fatalmente terão um fracasso colossal. E nosso país, hoje, é o maior exemplo disso.

Segundo, temos o campo do micro: de uma família, de uma empresa, de uma instituição qualquer ou até mesmo de um técnico de futebol ou de um professor. Mas vamos pegar aqui o exemplo de uma família. É comum ouvirmos de um pai: "Estou me desdobrando, dormindo pouco, tirando empréstimos, enfim, estou abrindo mão do meu tempo e da minha saúde para garantir o futuro da minha família". Ora, sob a perspectiva grega-foucaultiana, esse sujeito está condenado. Primeiro, ele não está cuidando da própria saúde. Ele dorme pouco e se sacrifica para, na prática, ou não chegar até a velhice ou se tornar um idoso que não vai ter saúde para cuidar de quem ama e, ainda, é provável que terá que ser cuidado, quiçá sustentado financeiramente. E, segundo, ao pensar apenas no imediato, tirando empréstimos, endividando-se, para dar especialmente bens materiais aos que o rodeiam hoje, ele não está garantindo em nada o futuro financeiro dos filhos ou de quem quer que seja. Muito pelo contrário, por não cuidar da saúde, é mais fácil deixar uma dívida de anos para seus rebentos.

Portanto, meus amigos, relembrando essa obra do Foucault, aconselho (em nome dos gregos) vocês a pensarem melhor antes de irem à urna, ao banco tirar empréstimos ou dormirem pouco e se alimentarem mal. A dica é: cuidem-se e aproveitem a vida para, estando bem, poder ajudar os outros. Seja um político ou um pai de família. Pois quem está bem, com o corpo e a cabeça relaxados e com um bom planejamento financeiro, é quem toma as melhores decisões, tanto para si mesmo quanto para os que o cercam.


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