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Cuba: liberdade x revolução

30 de Julho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Victor Missiato - Doutor em História, membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca)

Um dos principais mitos fundadores da modernidade é a revolução. Sua origem advém do latim revolutio, que significa, basicamente, o ato de dar voltas. Antigamente, revolução era um termo utilizado para o movimento circular de astros no universo. Ordem, previsibilidade e simetria compunham a interpretação do termo em tempos pré-revolucionários. Tudo começou a mudar quando um novo tempo histórico se formou no continente europeu. De acordo com o historiador alemão Reinhart Koselleck, em sua obra Futuro Passado - Contribuição à semântica dos tempos históricos, esse novo tempo histórico procurou romper a dimensão do futuro em relação ao passado. Romper a ordem, viver o imprevisível e destituir as simetrias hierárquicas dos poderes nobiliárquicos passou a compor a nova interpretação do conceito de revolução.
Desde os séculos XVII e XVIII, diversas foram as revoluções sociais que procuraram criar seus símbolos revolucionários. Muitas vezes se apropriando de rituais religiosos, as revoluções modernas construíram suas bases por meio dos escombros das instituições destruídas, tomando aqui a expressão utilizada pelo pensador francês Alexis de Tocqueville, em Antigo regime e revolução. Foi através dessa visão que os mitos fundadores da revolução foram criados. No processo de formação da América, o mito revolucionário também foi estabelecido enquanto tempo fundador do “novo” continente. Nos EUA, os founding fathers até hoje são encarados como a base identitária da nação. No México, a Revolução de 1910 é vista, por muitos, como porta de entrada à modernidade social latino-americana no século XX.
Provavelmente, o último grande mito revolucionário latino-americano tenha sido a Revolução Cubana, em 1959. Inicialmente liberal e nacionalista, a experiência se transformou em revolução socialista entre 1961-62. Pregando um “novo homem”, Fidel Castro e companheiros abalaram o tempo histórico ao saírem de Sierra Maestra e propor uma refundação da identidade cubana e latino-americana. Um homem guerrilheiro, militante, radical nas ações, reacionário nos costumes, violento contra o inimigo e fiel a sua causa.
Desde a sua eclosão, o mito cubano se espraiou pelo continente, arregimentando movimentos em favor da libertação nacional e imperialista. Libertar-se para o comunismo cubano nunca significou liberdade individual. A liberdade para Fidel Castro significa desprender-se das causas individuais em nome do coletivo, do partido, da pátria. Em 1968, quando bandeiras eram hasteadas mundo afora em favor dos direitos de ser humano, a partir de uma multiplicidade do que significa ser humano, a Cuba comunista institucionalizava a repressão violenta contra qualquer orientação sexual não condizente com seus preceitos. Quando qualquer voz opositora ao regime apontasse desvio, a repressão vinha por expurgos, prisões e assassinatos. Portanto, não é de se estranhar que as recentes manifestações tenham sido tratadas como “contrarrevolucionárias” a mando de interesses norte-americanos, embora os vídeos retratem uma população carente e consciente das necessidades e vontades.
Como uma das primeiras medidas para amortecer o impacto dos movimentos sociais, o regime cubano, um dia após as manifestações, derrubou a internet. Para além das primeiras medidas autoritárias, o dilema posto a partir de agora será o seguinte: conseguirá o regime arrefecer novamente a rebeldia de seu próprio povo contra o seu sistema, inspirando-se no comunismo chinês enquanto controle social com liberdade de mercado, ou haverá uma implosão do comunismo enquanto regime político na ilha caribenha?


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