Editorial

Crivella virou personagem em quadrinho

11 de Setembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

O que a história em quadrinhos (HQ) Vingadores - A cruzada das crianças tem em comum com Ulisses, de James Joyce; A origem das espécies, de Charles Darwin; Esperando Godot, de Samuel Beckett, e A metamorfose, de Franz Kafka? O selo da censura.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, responsável por ordenar o recolhimento da obra na Bienal do Livro, conseguiu colocar seu nome na história ao lado de outras figuras que fizeram o mesmo. Também censuraram livros e documentos Henrique VIII entre 1536 e 1550 (sua briga com o papa levou à destruição de 300 mil volumes de textos católicos); Adolf Hitler em 1933 (o Nazismo promoveu a queima de livros na Alemanha) e Getúlio Vargas em 1937 (contra o comunismo, o governo promoveu a destruição de obras de Jorge Amado e José Lins do Rêgo na Bahia).

Livros sempre incomodaram quem vê o poder como ferramenta para tentar impor algo. Pode parecer surpresa que nos dias de hoje algo assim ainda aconteça, mas obras importantes costumam ser alvo da ira e da ignorância. Como esquecer a destruição de exemplares do Alcorão por soldados norte-americanos em 2012, o que levou a vários dias de protestos no Oriente e provocou a mortes de pessoas? Ou, mais no passado, a destruição de escritos budistas em 1.153, com o processo de conversão das Maldivas ao Islã e o assassinato de monges?

Crivella tentou censurar uma produção que já existe há quase uma década e estava esquecida. Com seus argumentos tortos, porém, deu um tiro no pé e recebeu uma reprimenda do STF. A HQ ganhou notoriedade, vendeu como nunca na Bienal, chamou a atenção do Brasil, mobilizou milhares de pessoas em defesa dos direitos humanos, repercutiu internacionalmente e transformou o prefeito em vilão. Como aqueles das histórias em quadrinhos, onde sempre acabam derrotados.


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