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Cortes em investimentos em ciência: onde queremos chegar?

22 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marcos Britto Correa, professor da Faculdade de Odontologia da UFPel e atual coordenador de Pesquisa na Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação

Nos últimos meses temos observado um crescente ataque por parte de órgãos governamentais e do próprio presidente da República às instituições que trabalham com ciência e tecnologia no país, que vivem atualmente crise sem precedentes. Além dos bloqueios impostos pelo Ministério da Educação às universidades federais, responsáveis pela maior parte da produção científica nacional, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), outro pilar do fomento à pesquisa no Brasil, corre o risco de fechar as portas em setembro, sem recursos para sustentar até o final do ano nem sequer o pagamento de bolsas já contratadas.

A UFPel sente em sua pele o resultado do desmonte da ciência no país. Nos últimos cinco anos, teve mais de dois mil projetos de pesquisa cadastrados. Conta com 529 bolsistas de iniciação científica ou iniciação em desenvolvimento tecnológico, dos quais 230 são financiados pelo CNPq e 142 por recursos da própria instituição, direcionadas para que estudantes beneficiários de ações afirmativas também tenham oportunidades de iniciação a pesquisa e desenvolvimento. Possui ainda 148 docentes bolsistas de produtividade do CNPq, reconhecimento dado a pesquisadores com produção destacada em suas áreas. O que toda essa gente faz? Nada de balbúrdia. De maneira simplificada, por meio desses projetos se gera conhecimento com aplicações diretas ou indiretas na melhoria da qualidade de vida da população. Essa ampla gama de atuação inclui, apenas como alguns exemplos, o entendimento de mecanismos envolvidos no desenvolvimento e tratamento de tumores, o desenvolvimento de vacinas, a descoberta de causas das principais enfermidades que afetam a população, a síntese de materiais com aplicação biomédica, o desenvolvimento de cultivares que se adaptem melhor ao clima da região, novas metodologias de ensino/aprendizagem, entre muitas outras. A continuidade dos projetos de pesquisa na UFPel está seriamente ameaçada pelo corte dos investimentos públicos em ciência e tecnologia. Não são poucos os casos de alunos da Universidade que ao terminar o doutorado, não tendo oportunidades de colocação no mercado de trabalho nacional, estão migrando para instituições de pesquisa e universidades na Europa, Estados Unidos ou Austrália, um processo conhecido como "fuga de cérebros", mas que também significa fuga de recursos.

Estima-se que o investimento em ciência retorne aos cofres cerca de 20% ao ano. Países usados como exemplo de desenvolvimento pelo atual governo, Israel e Coreia do Sul são destaque se considerarmos o percentual do PIB aplicado em ciência e tecnologia, ambos acima de 4,5%, contra 1,3% no Brasil. Em termos brutos, o montante investido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia nos últimos dois anos atingiu patamares equivalentes aos anos de 2000 e 2001. Para aumento de recursos, o governo aposta em maior participação do capital privado, o que é difícil de imaginar em um país em estágio de desindustrialização. Mesmo concordando com a necessidade de aproximar a Universidade do setor produtivo, é preciso entender que parte importante das pesquisas gera conhecimentos e produtos de interesse social e, mesmo aquelas com potencial de aplicação direta no mercado, dependem de anos de pesquisas básicas para o seu desenvolvimento. Não por acaso, o investimento em pesquisa em universidades americanas e europeias é advindo prioritariamente de recursos governamentais, representando 60% e 77% respectivamente.

Enquanto a chamada economia do conhecimento avança rapidamente no mundo desenvolvido, baseada no desenvolvimento de capital humano e inovação de produtos e processos, o Brasil se consolida como exportador de commodities, jogando suas cartas na ampliação do agronegócio aliada a uma política ambiental na contramão da sustentabilidade. Não bastasse a falta de recursos, cientistas têm sido alvos de críticas infundadas por parte dos que desconhecem o rigor do método científico e a contribuição fundamental da ciência para o desenvolvimento econômico e social do país. Sem investimento pesado em ciência e tecnologia, ficaremos limitados ao papel de "fazenda do mundo". Resta saber até quando.


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