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Coringa: a construção da doença

28 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa - pediatra - prosasousa@gmail.com

Belo e traumático, esse último filme do americano Todd Phillips é uma boa aula sobre o processo de adoecer e, de acréscimo, sobre cinema. Com um Joaquin Phoenix magistral, aprendemos sobre a dramatização impecável de um personagem complexo e sórdido, cujo destino não poderia ser outro que o da doença, do crime e do sofrimento. O trabalho em conjunto arrebata, mas a cena é roubada pelo Coringa, o personagem central. Nada se lhe compara.

O início de vida de Arthur Fleck não foi moleza, como soe acontecer, e já na infância começou a nascer o Coringa, o arqui-inimigo do Batman, cujas risadas fora de lugar e a descoberta do prazer de matar - só assim conseguiu afirmar seu miserável eu - deram contorno ao Joker. Foi como o Coringa passou a sentir que existia, dentro da multidão que não o enxergava. O pequeno Arthur foi desdenhado por sua mãe enferma e submissa, cuja gravidez ela conseguiu numa relação fortuita com um poderoso qualquer. No correr dos dias o destino do Coringa foi que, tomado pela raiva, assassinasse a ambos, mãe e pai. Uma tragédia grega, pois não poupou ninguém que antes tivesse ofendido ao indefeso Arthur. Todos morreram sob a risada do Coringa, exceto o anão, que fora inexpressivo para o desajustado e, portanto, nem merecia a morte. De qualquer modo, uma concessão que um Scorcese não faria.

Mas, isso não passa de mero esquema psicológico feito por alguém a quem o filme caiu simpático.

Muito mais contundente, e imperdível, é a análise sociológica feita por João Pereira Coutinho, na Folha de S.Paulo de 15.10. O sociólogo português estava de maus bofes quando assistiu ao filme. Primeiro que, estando a ver o Coringa, passou todo o tempo a lembrar-se do Silêncio dos inocentes e de Hannibal Lecter, o psicopata interpretado por Anthony Hopkins. Também lembrei do terror que senti ao presenciar o mal em Hannibal Lecter, o canibal letrado que apreciava Bach e lia as Meditações de Marco Aurélio. Mas, não é que a cultura nos civiliza?, indaga-nos o português. Não é que devemos perceber "uma relação positiva entre sabedoria e virtude?", ou que "a cultura nos torna melhores?" ou ainda que "nos protege dos piores instintos?", segue indagando, implacável, o luso. Bem, a história do nazismo mostra, inexoravelmente, que ter apreço por Beethoven pode casar-se perfeitamente com passar o dia matando desafetos.

O português Coutinho detestou esse "Coringa", pois entendeu que estando no outro extremo do Silêncio dos inocentes, o filme atual "não passa de um clichê de esquerda e de direita - e pelos mesmos motivos". Explica ele: "Gestado na cultura vitimaria em que vivemos", a esquerda toma que Coringa é fruto da maldade do capitalismo e a direita entende Coringa como "homem esquecido", que votaria em Trump, e congêneres, na próxima eleição.
O luso, no Coringa, estava de "maus fígados", título do artigo de Coutinho. Há que concordar. Nada garante nem prova nada nesse mundo.


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