Crônica

Consequências

12 de Julho de 2020 - 16h20 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Thais Russomano

"Sou a terceira filha, tenho duas irmãs mais velhas", comentou a guia turística, enquanto dirigia rumo a um monastério secular, localizado próximo a Bucareste. E seguiu. "Nasci durante o regime comunista e tive uma infância difícil. Vivíamos com muitas restrições. Água e luz eram racionadas pelo Partido Comunista Romeno". Foi quando ela respirou fundo e completou, "mas, não fosse por isso, talvez nunca tivesse nascido". A guia então parou subitamente de falar. Sua voz foi substituída por um longo silêncio, seu olhar ficou vago e perdeu-se no tempo do regime de Nicolae Ceaussescu. Foi nesse ponto da conversa que resolvi interferir e indaguei qual poderia ter sido a relação entre o racionamento de recursos imposto pelo governo e sua vinda ao mundo. Para mim, era difícil enxergar a ligação entre uma coisa e à outra.

"Minha mãe estava grávida. À noite, enquanto arrumava as coisas e cuidava de minhas irmãs mais velhas, sua única fonte de luz eram velas espalhadas aqui e ali. Era assim também no apartamento da vizinha logo ao lado. Essa senhora descuidou-se, uma vela caiu e o fogo se alastrou rápido. Chamas altas e uma fumaça espessa encheram o nosso apartamento. Minha família toda acabou no hospital. Ninguém ficou gravemente ferido, mas o bebê morreu. Era um menino, o filho que meu pai tanto queria".

Seguíamos deslizando pelas estradas romenas, quando a história finalmente fez sentido. Sua mãe engravidou de novo, pois era o desejo do pai ter um filho, "um companheiro de vida", como almejava. O destino, porém, presenteou o casal com mais uma menina, que cresceu, tornou-se uma mulher e, naquele momento, dirigia o carro, que me conduzia por um passeio turístico pela bela Romênia.


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