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Como prever as tempestades

06 de Julho de 2019 - 08h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger
Professor do Centro de Artes da UFPel

Há 90 milhões de anos, no deserto que cobria o interior do atual estado do Paraná, vivia um pequeno dinossauro, um predador de botar a correr de medo os outros répteis, prováveis vítimas de sua dieta. O Vespersaurus Paranaensis tinha lâminas nas patas e corria mais que um cavalo puro-sangue inglês, que ainda não existia naqueles tempos distantes. Um gaúcho destemido, supondo que o Alegrete já estivesse no mapa, que tentasse domar o animal se veria entre seus dentes antes de montá-lo, tamanha a fúria do bicho de apenas 1,50 metro de comprimento.

Sorte a nossa que faz milhares de anos, antes mesmo da data hipotética do criacionismo ou da recente marcha para Jesus ou do planeta pizza do Olavo de Carvalho, três delírios infantis. Note-se: em tese, delírios sem o uso da Cannabis Sativa. Vejam que as drogas mais nocivas são outras. Como sabemos, os desertos se multiplicaram no Brasil a cada bendito ano e os dinossauros aparentemente foram extintos, embora as informações trocadas no WhatsApp, no Instagram, no Twitter, no Facebook e nos programas dos canais neopentecostais possam nos assustar com os desatinos mesozoicos e alucinações bíblicas.

No período cretáceo, no auge dos répteis gigantes ou nem tanto, nós seres humanos não existíamos nem em sonho. Quando há aproximadamente três milhões de anos começamos a dar o ar da graça na terra azul e meio redonda de Aristóteles, Eratóstenes, Copérnico, Galileu e Yuri Gagarin, ficávamos apavorados, como crianças em noites de tormenta, com os rugidos dos mamíferos, com raios e trovões, com as cores da alvorada e do crepúsculo, com terremotos e vulcões, com o granizo, com as eclipses, com os cometas e meteoros, com o nascimento de um bebê e com a morte. A incompreensão sobre os fenômenos da natureza e sobre o processo civilizatório e cultural que se iniciava nos pequenos grupos humanos era a que precisava ser superada ao longo dos tempos.

Depois de aprendermos a fazer e controlar o fogo, nosso cérebro deu um salto extraordinário. Inventamos os deuses e, depois, um deus único, para darem conta daquilo que não entendíamos; para nos proteger de uma natureza inóspita; para tentar explicar para nós mesmos as escolhas e conflitos humanos; para nos confortar diante de um acontecimento e sentimento inexplicáveis. No entanto, na medida em que os sistemas religiosos se apropriaram e foram dando as rédeas do comportamento e do que é válido ou não, o deus acabou sendo uma terrível ameaça para dominar e enganar. As religiões ergueram altos muros entre todos nós. Quantas guerras aconteceram e ainda acontecem em nome deste ou daquele deus, em nome desta ou daquela religião?

Leiam o Conto da Aia, lembrem do Alto Pardal, em Games of thrones, do massacre de São Bartolomeu, da conquista de Jericó narrada na Bíblia... Por outro lado, nas vezes em que deixamos de ver o estranho ou o diferente como inimigo a ser eliminado, começamos a trocar e a multiplicar o conhecimento, a arte e a ciência. Somente assim, evoluímos culturalmente e cientificamente e chegamos até o parafuso, o smartphone, a democracia, o quentão e a descoberta do genoma. Descobrimos, também, que a pele branca somente surgiu por volta de 5500 a.C. É essa nossa segunda natureza, ou seja, a cultura e racionalidade, que se realizam na pesquisa incansável, nas expressões das artes, que pode nos levar adiante como humanidade, ou, sem ela, se presos aos sistemas de religião e à fantasmagoria de um deus supremo, para trás, em direção aos tempos do feroz Vespersaurus. E já prevemos as tempestades.


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