Como não amar Cecília Meireles?

06 de Dezembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Rosa
Sociedade Científica Sigmund Freud
prosasousa@gmail.com

Simplesmente olhar a vida de Cecília Meireles já dá o que pensar. Não só a poesia chama a atenção. Logo aos três anos morre-lhe a mãe e o pai faleceu ainda antes dela nascer. Criada pela avó, deu no que deu: mulher de uma poesia monumental, poeta para além do que, concretamente, deitava no papel. Alcançou viver poeticamente, construir a vida, interminável construção, artisticamente. É desse tipo de gente que encontra formas de ultrapassar perdas e danos e alegrias e alçar-se a ser quem é, ou chegar a ser aquilo que deseja ser. Cecília Meireles é da escola de Rômulo e Remo que, órfãos, criados pela loba, tiveram a audácia de fundar a capital do Império, Roma.

À poesia: "Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta".

O que soa forte aqui é considerar a vida como completa e, penso, isso ocorre para qualquer idade. Um recém-nascido tem sua vida completa já ao nascer e é um ser pleno, com emoções, sofrimentos e agonias próprias de seu tempo, ainda que este seja breve. É-se total a cada instante. Estará alegre, estará triste, segundo o que lhe toca viver, mas o fará, em ambos casos, de modo pleno. Supor que crianças são seres incompletos é a miopia pior das que sofremos em adulto. Aos três dias, aos 99 anos, vive-se a vida cabalmente, inescapavelmente, irremediavelmente.

"Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai. / Esta que me deu corpo é minha Mãe. / Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram / Em espírito. / E esses foram sem número. / Sem nome. / De todos os tempos. / Deixaram os rastros pelos caminhos de hoje. / Todos os que já viveram. / E andam fazendo-te dia a dia. / Os de hoje, os de amanhã. / E os homens, e as coisas todas silenciosas. / A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos. / O teu mundo não tem polos. / E tu és o próprio mundo".

Isso de dizer em três ou quatro palavras como chegamos a humanamente existir é dom para poucos - poetas - mulheres e homens. Mostrar-se grata a todos e a tudo - "as coisas todas silenciosas" - é qualidade incomum, que se ressalta em Cecília Meireles, no ensaio sobre a construção de si, exaltando o valor do mundo, das gentes, das coisas, na elaboração da obra. Reconhecer o quanto somos dependentes de tudo e de todos só nos faz crescer e ganhar em autonomia. Soa paradoxal, mas é, acredito, verdadeiro.

"O que tu viste amargo, / Doloroso, / Difícil, / O que tu viste breve, / O que tu viste inútil / Foi o que viram os teus olhos humanos, / Esquecidos... / Enganados... / No momento da tua renúncia / Estende sobre a vida / Os teus olhos / E tu verás o que vias: / Mas tu verás melhor..."

Estes poemas foram extraídos dos Cânticos e ali Cecília Meireles nos faz ainda um apelo: "Não faças de ti / Um sonho a realizar. / Vai. / Sem caminho marcado".

Cecília Meireles, 1901-1964, está entre nós há exatos 120 anos. Ter poetas a comemorar é sorte.


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