Artigo

Cocteau e Genet

26 de Outubro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Ele entra e sai da prisão com tal desempeno como se habitasse a própria casa. Na verdade, pouco lhe importa. Lá escreve melhor. Seus primeiros poemas sempre foram escritos atrás das grades, no silêncio lasso da cela, inclusive O condenado à morte, obra que Jean Cocteau somente virá a descobrir em 1943. 

O amor é imediato. Enlevado pela magia dos versos, Cocteau agenda encontro com Jean Genet. Ele o convida para jantar, implora ao conviva para ler outros textos e ouve, seduzido, arrebatado, revoltado, excertos de Nossa Senhora das Flores, uma literatura que é física, mineral, poesia-objeto, poesia-corpo que só se refere ao concreto e que, por isso mesmo, nos alcança. Uma poesia que é censura e desprezo; que é esperança do mal. Ao lê-la, Cocteau é atingido por esses ataques literários feitos por um marginal homossexual que nada esconde da violência e do erotismo cru que carrega em seu interior. "Confie a mim seu manuscrito", diz-lhe Cocteau. Na casa dos Jouhandeau lhes faz a leitura. Élise não gosta muito; Marcel entusiasma-se. Dias após, novo encontro é marcado, justo na hora de Cocteau barbear-se. Trata-se de um grande clássico: Cocteau recebe muitas vezes no belo lavabo de mármore rosa, com um pincel de barba com cabo de marfim na mão. Reside então na rue Mazarine, perto do Café de Flore e do Deux Magots - aquele café do liqueur de framboise, que é dos deuses! -, onde Sartre escreve com a mão direita O ser e o nada e com a esquerda segura a de Simone de Beauvoir.

Espécie de autor maldito do primeiro quartel do século 20, Jean Genet narra a sua vida enquanto Cocteau segura o pincel de barba cheio de branca espuma. Filho de pai desconhecido, mãe prostituta que o abandona ainda com poucos meses de idade, criado em família adotiva, ladrão aos dez anos, fugitivo aos 13, homossexual declarado numa época em que as opções sexuais eram ocultas, Genet é profundo conhecedor das casas correcionais e complexos penitenciários. Aos 18 alista-se na Legião Estrangeira, mas é expulso ao ser surpreendido ao fazer sexo com um soldado, logo contrai o hábito de roubar livros e passa sete vezes pelas celas de uma mesma prisão. Provavelmente, profetiza, passará mais.

"Tem que publicar", enfatiza Cocteau. Mas não é esse o querer de Genet. "Vou tentar assim mesmo", atalha-o Cocteau. Ele termina de barbear-se, veste a calça e o paletó, calça o sapato e põe o chapéu. Procura editores. Retorna, amargo. A poesia corrosiva, de acidez clássica, mas de beleza terrível do poeta-vilão não agrada possíveis editores. Surge uma ideia. Eureka! Cocteau compra de Genet o manuscrito de Nossa Senhora das Flores.

Apanhado roubando uma coletânea dos poemas de Verlaine, Genet é recolhido à prisão de la Santé. O amigo se desespera. Quase enlouquece. Juntamente com Jean Marais visita-o no cárcere. Promete tentar libertá-lo. E, de fato, o faz. Contrata um advogado para defendê-lo e assiste ao julgamento. Veredito: 90 dias de prisão. No período, Genet escreve O milagre da rosa. Cumprida a pena, o poeta-vilão deixa o cárcere. Mas logo reincide. E sai de cena... e da vida de Cocteau. Gênio literário, Jean Genet morreu em 1986, aos 75 anos de idade; Jean Cocteau em 1963, aos 74 anos.


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