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Círculo de Estudos Cinematográficos (parte 2)

18 de Janeiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Luis Rubira

Ao analisar a estrutura lógica do documento datado de 19 de setembro de 1959 que Luis Fernando Lessa Freitas enviou para o editor da Revista de Cultura Cinematográfica, percebo que ele sabia que se movimentava no terreno de um registro histórico. Intelectual que tinha então por volta de 30 anos (e que em abril do ano seguinte proporia a criação da Feira do Livro de Pelotas, em sessão realizada na Bibliotheca Pública Pelotense), ele não somente registra no documento que está convicto que o cineclube pelotense é um "dos mais antigos do Brasil", mas empenha-se em narrar as atividades do Círculo de Estudos Cinematográficos para mostrar um avanço em termos de qualidade na seleção e debate das obras da Sétima Arte.

>>> Círculo de Estudos Cinematográficos (parte 1)

De modo estratégico nesse documento de três páginas Lessa Freitas informa que as atividades do cineclube compreendem três temporadas. Em relação à primeira delas ele faz uma reconstrução pormenorizada das primeiras 18 sessões realizadas entre outubro de 1950 e junho de 1951. Exceto por um filme realizado na França e dois no Reino Unido, as 17 primeiras sessões giram em torno do cinema produzido nos Estados Unidos, a começar pela sessão inaugural do cineclube que é Michel Strogoff (EUA, 1937. Direção: George Nicholls Jr.), um filme baseado no romance homônimo de Jules Verme.

Após indicar na sessão 18 (o cineclube parece então chegar à sua maioridade) a exibição de "documentários franceses", Lessa Freitas passa a tecer comentários (sobre o curta-metragem Pacific 231, de Jean Mitry) e em seguida informa que outros nove filmes foram exibidos ainda dentro desta "primeira temporada" (que parece avançar pelo ano de 1952). Dentre estes filmes produzidos em países como Itália, Polônia, México, Reino Unido, chama a atenção que a opção por filmes norte-americanos tenha sido por aquelas de caráter antropológico como Nanook, o esquimó (EUA, 1922. Direção: Robert Flaherty) e Tabu (EUA, 1931. Direção: F.W.Murnau. Roteiro: Robert Flaherty).

Iniciada em 1953, a segunda temporada dá o tom de amadurecimento de seus cinéfilos. Começando pela exibição de José Artigas, Protector de los pueblos libres (Uruguay, 1950. Direção: Enrico Gras), eles avançam por películas do cinema húngaro, alemão, francês e italiano. Por fim, ao relatar a terceira temporada, ele retoma a estratégia inicial: apresenta pormenorizadamente as obras exibidas entre agosto e novembro de 1954. É quando vemos então que o cineclube exibiu em poucos meses filmes como Alemanha, Ano Zero (Alemanha, 1948. Direção: Roberto Rossellini), Rashomon (Japão, 1950. Direção: Akira Kurosawa), Orfeu (França, 1950. Direção: Jean Cocteau), A besta humana (França, 1938. Direção: Jean Renoir), O Encouraçado Potemkin (URSS, 1925. Direção: Serguei Eisenstein) e Milagre em Milão (Itália, 1951. Direção: Vittorio De Sica).

Compreendo somente agora por que Aldyr Garcia Schlee sempre falava que o Círculo de Estudos Cinematográficos havia sido muito importante na formação de sua cultura geral quando chegara jovem a Pelotas. Gostaria de saber mais sobre como os rolos de 16 mm chegavam nas mãos daqueles jovens cinéfilos para exibição e quais eram os filmes que passavam no circuito comercial da cidade. Afinal, os membros do cineclube pareciam ter critérios para a seleção das obras. Mas isto seria trabalho para, no mínimo, uma dissertação de mestrado. Talvez eu possa contribuir com ela dando a público, em breve, a lista completa dos quase 70 filmes registrados por Luís Fernando Lessa Freitas.


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