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Ciência diversa, sociedade diversa: acesso afirmativo para travestis e transexuais na pós-graduação da UFPel

07 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Rafael Vetromille Castro, coordenador da Pós-Graduação/UFPel e Airi Macias Sacco, coordenadora de Inclusão e Diversidade/UFPel

Em 2020, o Brasil atingiu duas marcas em relação à população transexual. A celebrar, há o número recorde de pessoas trans eleitasnos municípios. A outra marca - vergonhosa e imoral - é o posto de país que mais mata transexuais no mundo pelo 12º ano consecutivo, segundo o Trans MurderMonitoring. Até setembro de 2020, 43% dos assassinatos de travestis e transexuais na América Latina tinham ocorrido no Brasil.

Tal violência tem várias origens, como a impunidade e os discursos de ódio (inclusive os oficiais), e que se refletem na rejeição familiar e no rechaçamento no mercado de trabalho. O resultado é a busca por sobrevivência no mercado informal, por vezes na prostituição, e a exposição à extrema violência.

É com este cenário que traz as cores da exclusão e da morte, mas também com pinceladas de tons mais vivos e visíveis, que a UFPel aprovou, na terça-feira (4), a reserva de 5% das vagas em processos seletivos de todos os Programas de Pós-Graduação para travestis e transexuais. A reserva entrará em vigor nas próximas seleções regulares de Mestrado e Doutorado, buscando democratizar o acesso à pós-graduação e oportunizar melhor qualificação acadêmica e profissional.

A UFPel possui 48 programas de pós-graduação, com excelência nas mais diversas áreas. Porém, tal diversidade não surge da mesma forma nos corpos docente e discente. Na graduação, a reserva de vagas democratizou o acesso e mudou caras e cores do ensino superior local, antes restrito a parcela ínfima da população. Esse mesmo fenômeno está ocorrendo na pós-graduação, que desde 2017 reserva vagas para pessoas negras. Desde então, o número de estudantes negros (as) mais do que dobrou. Os dados mostram a necessidade e o impacto de políticas para o aumento da diversidade na instituição, de modo a refletir a realidade que encontramos além dos muros.

Segundo a Andifes em 2019, parcela pequena de estudantes se declara como pessoa trans, mas em torno de 11% não se identifica como cisgênero. A entidade aponta que estudantes não identificados (as) como cisgêneros (as) concentram-se em áreas cujas carreiras estão associadas a salários menores do que aquelas em que estão os(as) cisgêneros (as). Tal fato sugere uma desigualdade socioeconômica correlacionada com diferenças de gênero, demandando políticas de acesso afirmativo da população para todas as áreas do conhecimento e, portanto, para todos os programas de pós-graduação. Em ciência, diferentes perspectivas trazem soluções para questões ora consideradas insolúveis. As perspectivas de cada indivíduo são construídas por sua história e trajetória, as quais são, por vezes, descartadas por preconceito. Portanto, trazer diversidade para a pós-graduação é trazer novos olhares e soluções para a ciência.

Em cenários com cores pesadas, em momentos de obscurantismo, temos a convicção de que o acesso afirmativo para travestis e transexuais na pós-graduação - além de ser uma vitória dos movimentos sociais, um direito fundamental à educação e a condições de uma vida melhor, e um dever no combate à pobreza e à marginalização - é um ganho de mais cores e mais luz para o ambiente acadêmico e científico. Sociedade e ciência avançam na diversidade. A UFPel é diversa.


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