Artigo

Chuva é como gente

01 de Junho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental prosasousa@gmail.com

...nunca vem na medida certa. Meu pai agricultor andava sempre com os olhos espichados para o céu, num clamor silencioso por mais chuva ou menos chuva. Gostava de vê-lo extremado, cuidando da plantação, não só por preocupações com a safra, mas, cada pé de feijão era objeto de carinho. Pudesse, levava os feijões para dentro da casa. Esses gestos se estendiam ainda às mudanças de estação. Não era de bom augúrio que o inverno entrasse seco, faltaria, no forte do frio, pasto para os bichos. Mais apreensão. Se desse, a terneirada dormiria na sala. E sempre havia algum guacho pra gurizada não só alimentar, mas pra retoço na volta das casas.

A benfazeja água era festejada não apenas pelo cheiro que despertava na terra, pelo banho que proporcionava na calha da esquina, ou para brincar resvalando no barro _ nós a sentíamos como parte da nossa natureza, ficar encharcado era normal, a chuva era a gente, a gente era da chuva, beber água que cai do céu é divertido, os sapos cantam e as cobras não vêm.

Gente da cidade é que se refere à chuva como tempo feio, instável, fechado, mau tempo. Mau? Donde tiraram? Se ela durasse um tempinho era motivo para tirar o poncho do armário e pra botar o aba larga e sair a cavalo, ou pra aprender a trançar laço na beira do fogo, ou passar graxa de ovelha nas cordas, de lonquear couro. Epifania campeira.

Naquela era não sabíamos da existência de Walt Whitman, em 'A voz da chuva: quem és tu?, perguntei ao aguaceiro que caía suavemente / E, coisa estranha, me deu a resposta que assim traduzo: / Sou o Poema da Terra, disse a voz da chuva, / Eternamente me elevo impalpável desde a terra e / desde o mar sem fundo, / Rumo ao céu, de onde, formada vagamente, / cambiada no todo e, não obstante, a mesma, / descendo a banhar as sequias...'.

Essas alegrias e lembranças das chuvas de infância vinham junto com o medo constante de que pudesse chover em demasia, fazendo charcos por todo lado e tornando os arroios rios caudalosos que, campo afora, cortam a passagem e levam tudo de arrasto. A sina do gaúcho é rogar que a chuva venha na justa medida, coisa de comemorar, normalmente o que vem é desmedida. É nisto que chuva e gente se igualam, o grande problema de ambos, gente e chuva, apresentar-se na medida adequada, nem mais, nem menos, apenas o quantum satis. Mas, como fazê-lo? se 'não sei quantas almas tenho. / Cada momento mudei. / Continuamente me estranho. / Nunca me vi nem acabei / ...Não sei sentir-me onde estou...', embeleza e complica-nos a vida Fernando Pessoa, ou, ainda este outro português, Ruy Belo: 'a vida para mim é como se chovesse / mas se viesses seria como se me acontecesse / cantar contigo a perene mocidade'.

Nestes tempos pelotenses improváveis, de ocorrer uma pandemia viral junto de uma chuva que não chega nunca, nos faz apelar a prudências paradoxais: lavar muito as mãos e ao mesmo tempo economizar muita água.


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